11/08/2026
JOANA SIMEÃO: CRESCEU EM TEMPOS DE GUERRA E DESAPARECEU NOS PRIMEIROS ANOS DO MOÇAMBIQUE INDEPENDENTE
Joana Simeão nasceu em Nampula, em 1937. Se estivesse viva hoje, teria 89 anos.
Mas a história desta mulher é marcada por uma pergunta que permanece até hoje: o que realmente aconteceu com Joana Simeão depois de ser enviada para um campo de reeducação?
Joana foi professora e activista política. Durante a sua passagem pelo estrangeiro, teve contacto com diferentes movimentos nacionalistas moçambicanos e chegou a apoiar brevemente a FRELIMO. Mais tarde, aproximou-se da COREMO e, já em Moçambique, tornou-se uma das principais figuras do GUMO — Grupo Unido de Moçambique.
E foi aqui que começou o verdadeiro conflito político.
Joana defendia a independência de Moçambique, mas defendia também que o futuro do país deveria ser definido através de participação política, diálogo e pluralismo, permitindo a existência de diferentes correntes políticas.
A FRELIMO, por outro lado, entendia que era o movimento que tinha conduzido a luta de libertação e que possuía legitimidade para conduzir o processo de independência e a construção do novo Estado.
Esse choque de visões tornou Joana Simeão, Uria Simango e outros opositores figuras incómodas para o novo poder.
Depois da independência, Joana foi levada para Nachingwea, na Tanzânia. Em 1975, foi apresentada como uma das chamadas “traidoras da revolução”, num processo político perante dirigentes da FRELIMO e Samora Machel.
Em vez de ser executada naquele momento, foi enviada para um campo de reeducação.
O seu destino foi M'telela, no Niassa.
Os campos de reeducação faziam parte da visão política da época. A FRELIMO, então fortemente orientada pelo marxismo-leninismo e inserida no contexto da Guerra Fria, considerava necessário “reeducar” pessoas classificadas como inimigas da revolução.
Mas M'telela tornou-se também símbolo do sofrimento de muitos prisioneiros políticos.
No final de 1976, jornalistas conseguiram entrevistar Joana Simeão no campo. Essa entrevista é considerada uma das últimas provas documentadas de que ela estava viva.
Depois disso, desapareceu.
Em 1995, surgiu uma versão segundo a qual Joana Simeão, Uria Simango e outros prisioneiros teriam sido retirados de M'telela no dia 25 de Junho de 1977, sob a promessa de que seriam levados para Maputo para discutir a sua libertação.
Segundo essa versão, durante a viagem, os prisioneiros teriam sido retirados dos veículos e conduzidos para um local isolado.
Ali, segundo os relatos, foram amarrados, colocados numa vala e posteriormente queimados.
É uma das versões mais conhecidas sobre o seu desaparecimento, mas os detalhes desse episódio não foram oficialmente esclarecidos e existem versões contraditórias sobre a data e as circunstâncias exactas da sua morte.
Durante décadas, Joana Simeão permaneceu oficialmente como uma pessoa desaparecida. Só em 2016, depois de um processo judicial, um tribunal moçambicano declarou oficialmente a sua morte.
Por isso, quando se fala de Joana Simeão e Samora Machel, não se deve reduzir tudo a uma simples questão de “eles não se entendiam”.
Havia um contexto político e ideológico muito maior.
Era o período da Guerra Fria, da expansão do socialismo em África e da construção de um Estado moçambicano de orientação marxista-leninista. A FRELIMO via a oposição política como uma possível ameaça à revolução; Joana Simeão e os outros opositores defendiam uma visão diferente para o futuro do país.
Este texto não pretende atacar Samora Machel, a FRELIMO ou qualquer corrente política.
O objectivo é apenas recordar uma parte da história de Moçambique que durante muitos anos permaneceu pouco conhecida.
Joana Simeão foi uma mulher que participou na disputa sobre o futuro político de Moçambique, acabou presa, enviada para um campo de reeducação e desapareceu sem que as circunstâncias exactas da sua morte fossem esclarecidas durante décadas.
Se estivesse viva hoje, teria 89 anos.
E talvez a pergunta mais difícil continue a ser:
O QUE REALMENTE ACONTECEU COM JOANA SIMEÃO EM M'TELELA?
Este será o último post deste género nesta página. Gostei muito do tempo que passámos a recuperar e mostrar estes temas da nossa história, mas chegou o momento de encerrarmos esta fase.
Foi um período interessante, sobretudo por trazer à discussão histórias que muitas vezes permanecem esquecidas.