03/09/2026
🎭GUNGU — 34 ANOS🇲🇿
A 02 de Setembro, o Gungu fez 34 anos.
Escrevo esta mensagem e, pela primeira vez em muito tempo, sinto que as palavras me f**am pequenas.
Porque como é que se resumem 34 anos?
Como é que se colocam numa página milhares de noites, aplausos, gargalhadas, lágrimas, nervos, improvisos, viagens, discussões, abraços, derrotas que pareciam finais e vitórias que afinal eram apenas novos começos?
Como é que se explica uma companhia de teatro que começou com sonhos maiores do que os seus recursos e acabou por construir um universo?
Talvez não se explique.
Talvez se agradeça.
Obrigado.
Obrigado aos meus actores.
Aos que estão. Aos que estiveram. Aos que chegaram ontem e aos que carregam esta casa há décadas. Aos que subiram ao palco pela primeira vez com as pernas a tremer e aos que hoje entram em cena como quem entra na própria sala de casa.
Obrigado por terem emprestado ao Gungu os vossos rostos, as vossas vozes, os vossos corpos, o vosso talento e, tantas vezes, pedaços inteiros das vossas vidas.
Vocês deram alma ao Gungu.
Aos nossos técnicos, a minha reverência.
Porque quando um actor recebe aplausos, há alguém nos que acendeu a luz certa. Alguém que abriu o microfone. Alguém que montou o cenário. Alguém que resolveu, segundos antes da entrada do público, aquilo que parecia impossível.
Vocês trabalham para que os outros possam ser vistos.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de grandeza.
A todos os nossos colaboradores — administração, produção, comunicação, televisão, cinema, manutenção, segurança, limpeza, bilheteira e a cada homem e mulher que, de alguma maneira, faz esta gigantesca engrenagem respirar — obrigado.
O Gungu nunca foi apenas aquilo que acontece quando a luz de cena acende.
O Gungu começa muito antes.
Começa na pessoa que abre a porta.
Na que limpa uma cadeira.
Na que vende um bilhete.
Na que atende um telefone.
Na que escreve.
Na que ensaia.
Na que m***a.
Na que desm***a.
Na que f**a quando todos já foram embora.
O espectáculo dura algumas horas. O Gungu acontece todos os dias.
E depois existe ELE.
O nosso extraordinário, exigente, incomparável e absolutamente insubstituível PÚBLICO.
Que relação extraordinária construímos convosco!
O Gungu já brilhou em palcos de África, Europa e América.
Recebemos distinções e prémios nesses continentes. O nosso trabalho atravessou fronteiras, sotaques, culturas e oceanos. Houve palcos estrangeiros que nos receberam com honra e plateias distantes que nos reverenciaram.
Guardamos cada reconhecimento com orgulho e gratidão.
Mas permitam-me uma confissão:
nenhum prémio se compara a uma cadeira ocupada no nosso teatro.
Nenhum troféu faz o barulho de uma sala inteira em delírio.
Nenhuma medalha consegue reproduzir aquele segundo de silêncio absoluto em que percebemos que uma frase atingiu o coração da plateia.
E nenhuma distinção internacional consegue substituir aquele espectador que, num fim-de-semana qualquer, decide sair de casa, enfrentar a cidade, comprar o seu bilhete e dizer-nos, simplesmente com a sua presença:
“Continuem.”
Vocês continuaram a vir.
Durante 34 anos.
Fim de semana depois de fim de semana.
E foram sempre sinceros connosco.
Quando gostaram, aplaudiram.
Quando gostaram muito, voltaram.
Quando não gostaram… bem, também nunca tiveram grandes dificuldades em informar-nos. 😂
E ainda bem.
Porque público que apenas elogia alimenta o ego.
Público que é sincero ajuda a construir uma companhia.
Vocês educaram-nos.
Desafiaram-nos.
Obrigaram-nos a crescer.
Ensinaram-nos que o verdadeiro sucesso não é uma sala cheia numa noite de estreia.
É conseguir que alguém queira voltar 34 anos depois.
Por isso, se algum dia perguntarem qual foi o maior prémio da história do Gungu, a resposta não estará numa vitrina.
Estará na plateia.
O nosso maior prémio sempre foi o público.
Hoje deveríamos ter feito uma grande festa.
Daquelas nossas.
Com música, abraços, memórias, discursos que prometem durar três minutos e acabam vinte minutos depois, actores a improvisarem mesmo quando ninguém lhes pediu, técnicos a resolverem o impossível e, provavelmente, alguém a perguntar no fim:
“A culpa é de quem?”
Já sabemos a resposta. 😂
Mas um inesperado acontecimento adiou tudo.
Mas talvez tenha sido bonito que os 34 anos chegassem assim.
Porque hoje não seria uma chegada.
Seria uma partida.
Hoje atravessámos uma fronteira invisível.
Terminámos 34 anos e começámos a caminhar para os 35.
E quero que este próximo ano seja uma longa celebração.
Não apenas do Gungu que fomos.
Mas sobretudo do Gungu que ainda vamos ser.
Porque existe uma coisa extraordinária nesta nossa história: ainda temos muito para sonhar.
Depois de 34 anos, ainda queremos fazer melhor.
Ainda queremos criar.
Ainda queremos experimentar.
Ainda queremos incomodar.
Ainda queremos fazer rir.
Ainda queremos fazer pensar.
Ainda queremos ouvir aquela gargalhada que começa numa ponta da sala e contagia a outra.
Ainda queremos aquele silêncio pesado depois de uma frase certeira.
Ainda queremos aquele aplauso que começa tímido e, de repente, põe uma sala inteira de pé.
Isso signif**a que acumulámos juventude.
O Gungu não tem 34 anos de idade.
Tem 34 anos de experiência em continuar jovem.
E talvez seja esse o nosso maior segredo.
Caímos algumas vezes.
Levantámo-nos mais vezes ainda.
Errámos.
Aprendemos.
Discutimos.
Fizemos as pazes.
Perdemos companheiros pelo caminho.
Recebemos novos.
Alguns chegaram crianças e hoje são homens e mulheres.
Outros chegaram espectadores e tornaram-se actores.
Outros chegaram actores e tornaram-se família.
E alguns partiram deste mundo, mas deixaram a voz presa às nossas paredes.
Porque num teatro ninguém desaparece completamente.
Há pessoas que continuam a entrar em cena dentro da nossa memória.
Por isso, esta noite, também é deles.
Dos que ajudaram a colocar pedra sobre pedra neste sonho.
Dos que não estão fisicamente connosco para ver os 34.
Nós vemos por eles.
E continuaremos por eles.
Meus queridos actores, técnicos, colaboradores e companheiros desta extraordinária viagem:
olhem para trás por alguns segundos.
Não para contemplarmos aquilo que fizemos com vaidade.
Mas para compreendermos a responsabilidade daquilo que construímos juntos.
Começámos por fazer teatro.
Depois percebemos que estávamos a construir memória.
E, sem percebermos exactamente quando aconteceu, tornámo-nos parte da memória cultural do nosso país.
Isso não pertence a uma pessoa.
Não pertence a um director.
Não pertence a um actor.
Pertence a todos nós.
Eu tive o privilégio extraordinário de sonhar com o Gungu.
Mas vocês cometeram a maravilhosa imprudência de acreditar no sonho.
E o público teve a generosidade de lhe dar sentido.
Por isso, se hoje me perguntarem:
“Gilberto, afinal, o que é o Gungu?”
Depois de 34 anos, talvez finalmente saiba responder.
O Gungu não é um edifício.
Não é uma marca.
Não é um palco.
Não é uma companhia.
O Gungu é aquele instante mágico em que as luzes da sala se apagam, centenas de desconhecidos f**am em silêncio e o palco ganha vida…
e todos concordamos em acreditar juntos.
Durante duas horas, somos uma família.
Rimos das nossas manias.
Choramos as nossas dores.
Zombamos dos nossos absurdos.
Questionamos o poder.
Questionamos a sociedade.
Questionamos até a nós próprios.
E quando a sessão termina, talvez ninguém saia exactamente igual à pessoa que entrou.
É para isso que serve o teatro.
E foi para isso que nasceu o Gungu.
Se nestes 34 anos conseguimos fazer uma criança sonhar, um adulto pensar, uma família rir, um governante reflectir, um jovem acreditar que a arte também pode ser uma vida, então cada ensaio cansativo, cada noite mal dormida, cada dificuldade e cada batalha valeram a pena.
E se alguém me perguntar qual foi a nossa maior obra em 34 anos, eu não direi o nome de nenhuma peça.
Direi: ter continuado.
Continuar quando era fácil.
Continuar quando era difícil.
Continuar quando havia dinheiro.
Continuar quando não havia.
Continuar quando nos aplaudiam.
Continuar quando nos criticavam.
Porque há 34 anos alguém abriu uma cortina.
E, desde então, recusámo-nos a fechá-la.
A todos vocês que fazem parte deste universo, o meu abraço mais profundo.
Sintam orgulho.
Muito orgulho.
Não aquele orgulho barulhento que precisa anunciar grandeza.
Mas aquele orgulho sereno de quem olha para uma obra colectiva e pensa:
“Eu estava lá. Eu ajudei a construir isto.”
E ao nosso público…
meus amigos, a dívida é eterna.
Obrigado por cada bilhete.
Cada aplauso.
Cada crítica.
Cada gargalhada.
Cada lágrima.
Cada regresso.
Obrigado por nos permitirem fazer parte das vossas famílias, das vossas conversas, das vossas memórias e, algumas vezes, das vossas vidas.
Vocês não assistiram apenas à história do Gungu.
Vocês escreveram-na connosco.
Agora fazemos 34.
Amanhã começamos outra vez.
Porque os 35 anos já vêm a caminho.
E se estes primeiros 34 anos foram uma odisseia…
preparem-se.
Ainda temos histórias para contar.
Ainda temos gargalhadas para provocar.
Ainda temos consciências para inquietar.
E enquanto existir alguém de um lado disposto a contar uma história…
e alguém do outro disposto a ouvi-la…
o Gungu estará vivo.
Parabéns, minha família Gungu.
Parabéns aos que estão no palco.
Parabéns aos que estão atrás dele.
Parabéns aos que estiveram desde o início.
Parabéns aos que chegaram depois.
E parabéns à razão maior de tudo isto:
o nosso público.
Hoje não celebramos apenas 34 anos de uma companhia.
Celebramos 34 anos de encontros.
Entre palco e plateia.
Entre arte e sociedade.
Entre sonho e teimosia.
Entre aquilo que Moçambique é…
e aquilo que ainda pode ser.
Aos 34 anos, olho para esta história e só consigo dizer:
Que privilégio ter vivido isto convosco.
E que extraordinária loucura pensar…
que ainda estamos apenas no intervalo.
Viva o Gungu.
Viva o Teatro.
Viva o nosso Público.
34 anos depois, a cortina continua aberta.
E agora…
vamos buscar os 35.
Com todo o meu amor, gratidão e orgulho,
✍️Gilberto Mendes
02 de Setembro de 2026