31/08/2026
MEMÓRIAS: DUZENTOS MORTOS NO ACIDENTE FERROVIÁRIO DE TENGA
TEXTO DE BENJAMIM WILSON
Quando tudo indicava que aquele se tornaria um sábado tranquilo, transformou-se num dia de pesadelo e de comovente choque para o país. A notícia da ocorrência de um grave acidente ferroviário, na Linha de Ressano, a cerca de 31 quilómetros da cidade capital, espalhara-se como o estalido que sofre uma parede ao ser embatida por um objecto de grande dimensão.
Recuamos até 25 de Maio, de 2002, no período entre às cinco e às seis horas, quando duas composições ferroviárias colidiram, próximo da Estação de Tenga, no posto administrativo de Pessene, distrito da Moamba, província de Maputo.
O sinistro envolveu duas carruagens de passageiros e um vagão de carga, como resultado de uma composição mista que partira de Ressano Garcia com destino a Maputo, que começou a apresentar problemas técnicos.
A uma distância de sensivelmente cinco quilómetros, numa zona de declive, seis carruagens de passageiros que seguiam na retaguarda da composição haviam sido desligadas dos vagões de carga. A separação deveu-se ao facto de a tripulação ter detectado que a máquina “D-40”, do comboio número 110, apresentava dificuldades de puxar a composição completa.
Ainda no percurso para Tenga, as carruagens deslizaram pelo declive, percorrendo uma distância de aproxidamente cinco quilómetros, tendo embatido nos vagões de carga, originando o sinistro.
ROMARIA
De imediato, após a notícia do sinistro, assistiu-se a uma incomum romaria de pessoas e de veículos, a partir de diferentes quadrantes da província e cidade de Maputo, dirigindo-se em direcção à Tenga, local do trágico acidente.
Nas unidades sanitárias foram mobilizadas a maior parte das ambulâncias, as quais circulavam a alta velocidade, espalhando ruidosamente o peculiar som das sirenes. Umas a irem, outras a regressar de Tenga, transportando feridos até aos hospitais.
A maior parte das viaturas não conseguiu alcançar a zona da Estação de Tenga, local escolhido para improvisar uma espécie de hospital de campanha, devido às limitações das vias de acesso, caracterizadas por muito areal e troços intransitáveis por força da presença de charcos de águas pluviais estagnadas.
SALVAMENTO
O cenário não podia ser mais aterrador e, de forma inabalável, roçava a um panorama dantesco. O trágico acidente ferroviário havia causado de uma única vez tantas mortes sobre a linha férrea.
Até ao início da tarde, elementos do Serviço Nacional de Salvação Pública, apoiados por equipas da Cruz Vermelha de Moçambique, da Direcção Provincial de Saúde e das Forças Armadas de Moçambique, trabalhavam para retirar corpos de vítimas por baixo dos escombros.
O então ministro dos Transportes e Comunicações, Tomaz Salomão, fez-se de imediato ao local, tendo dirigido durante todo o dia as operações de socorro dos feridos e retiradas das vítimas mortais.
No rescaldo preliminar, viam-se corpos de passageiros desfeitos em pedaços, alguns bocados de carne entalados no meio de rodados de vagões de mercadorias e de carruagens, componentes que ficariam quebrados em pequenas peças metálicas.
Muitas viaturas foram forçadas a ficar estacionadas a uma distância considerável do local do acidente, tendo sido necessário, de modo alternativo, percorrer distâncias equivalentes a mais de um quilômetro com os corpos de passageiros mortos ou de feridos envolvidos em lençóis, capulanas e mantas, com vista a realizar os resgates.
No local, as equipas de socorro movimentavam-se na recolha de corpos de vítimas mortais e pedaços de pessoas que se dividiram entre a amontoada quantidade de metal desfeito, como consequência do embate frontal de duas composições de comboios.
Na morgue do Hospital Central de Maputo (HCM), desde o sucedido e nos dias subsequentes, registaram-se enchentes de pessoas tentando localizar os familiares perecidos no acidente.
MORTES
O balanço preliminar apontava para cerca de 200 mortes no local, mais de 160 feridos que permaneceram sob cuidados sanitários para recuperar das lesões sofridas.
O Governo decretou a observância de luto nacional de três dias, com efeitos a partir da zero hora do dia 26 de Maio.
O então Presidente da República, Joaquim Chissano, expressou a sua solidariedade para com as vítimas do acidente. Falando a partir de Malehice, onde se encontrava a participar numa cerimónia familiar, disse ter ficado chocado com a tragédia que causou luto a toda a nação moçambicana. Chissano exortou todo o povo a solidarizar-se de diversas formas com as vítimas e respectivos familiares.
Pouco depois, Chissano encurtou a sua estada em Gaza, tendo de imediato regressado à capital, onde visitou os feridos internados no Hospital Central de Maputo. No dia seguinte, efectuou uma deslocação ao local do sinistro.
Em conclusão, o Governo reconheceu que o sinistro se deveu à negligência, com base no relatório do inquérito da comissão de peritos nomeada pela empresa Caminhos de Ferro de Moçambique.
Tal como foi salientado, a não observância do regulamento de circulação de comboios pela tripulação e pelo chefe da estação ferroviária de Tenga contribuíram para a ocorrência do acidente.
Entretanto, a Procuradoria-Geral da República liderou um comissão conjunta de investigadores, tendo sido ouvidas mais de 200 pessoas para reunir fundamentos necessários para a constituição de um processo-crime, cujo relatório teve acima de 800 páginas.
SOLIDARIEDADE
Apontado como tendo sido “sábado negro”, o sinistro foi considerado o maior de que há memória na história da família ferroviária nacional, superando o ocorrido, em 1990, na linha de Nacala, o qual resultou na morte de 106 pessoas.
As autoridades da saúde lançaram imediatamente insistentes apelos para os cidadãos doarem sangue, tendo um dos bancos de recolha sido montado na Escola Secundária Francisco Manyanga, e mobilizaram pessoal médico no activo ou em regime de apostenação para se dirigir às unidades sanitárias de referência para prestar assistência aos feridos.
Desencadeou-se uma resposta positiva de doação de sangue, visto que, em menos de 48 depois, perto de 1500 unidades daquele líquido vital haviam sido recolhidas em diferentes pontos, facto que permitiu ao HCM responder cabalmente a assistência aos sinistrados.
De diferentes quadrantes do mundo chegaram ao país mensagens de solidariedade para com o povo moçambicano, tendo o Papa João Paulo II pedido a “Deus Pai misericórdia” para acolher os perecidos.
O então Presidente da República Federal da Alemanha, Johannes Rau, enviou uma mensagem de condolências ao seu homólogo moçambicano, Joaquim Chissano, na qual manifestou consternação, e as sentidas condolências. Mensagens também foram recebidas do então estadista português, Jorge Sampaio, da China, Jiang Zemin, e dos primeiros-ministros britânico, Tony Blaiir, e de Portugal, Durão Barroso.
O antigo presidente da Assembleia da República Eduardo Mulémbwè manifestou, através de mensagem, a sua solidariedade, pedindo aos deputados para fazerem o que estivesse ao seu alcance para minimizar o sofrimento dos sobreviventes e prestar apoio às famílias enlutadas.
Destacar o facto de o então presidente da RENAMO, Afonso Dlakama, também se ter feito ao local do sinistro para prestar solidariedade e confortar os familiares das vítimas.
Mensagens também foram endereçadas por diversos líderes dos partidos da oposição em Moçambique, os quais pediam a sociedade para mobilizar apoios necessários.
A CFM, com base em recursos próprios, passou a prestar a assistência necessária às famílias das vítimas, nomeadamente a realização dos funerais, alimentação e aquisição de roupa de luto, apoio logístico para as despesas de tratamento de doentes, entre outros. Em relação às crianças que perderam os pais, a empresa anunciou que iria encontrar formas de apoiar em termos escolares e garantia de sustento.
Vai daí, dias depois, as autoridades governamentais viraram as suas atenções para a assistência psicossocial aos familiares das vítimas.
INQUÉRITO
Embora desde se colocava a hipótese do acidente ter ocorrido a partir de erro humano, uma comissão de inquérito ouviu a versão do maquinista sobre os factos.
Uma equipa da Procuradoria-Geral da República ouviu várias pessoas, entre membros da tripulação, sobreviventes do acidente e entidades que estiveram envolvidas nas operações de socorro das vítimas.
No final da 19.ª Sessão Ordinária, após apreciar os relatórios da comissão de inquérito e dos peritos ferroviários, o Conselho de Ministros concluiu que a não observância dos regulamentos de circulação de comboios por parte da tripulação e do chefe da Estação Ferroviária de Tenga contribuiu para a ocorrência do acidente.
O processo relativo ao acidente elaborado pela PGR foi enviado para o Tribunal Judicial da Província de Maputo para efeitos de julgamento e correspondente responsabilização.
FUNERAIS EM MASSA
Dois dias depois, foram a enterrar cinquenta e três vítimas, em cerimónias separadas, tanto na Moamba, como em Maputo, após um velório colectivo realizado na capela do HCM. As cerimónias contaram com a presença do antigo Presidente da República, Joaquim Chissano.
Dos funerais realizados, 29 foram no Cemitério de Lhanguene, quatro na localidade de Pessene, 14 na vila da Moamba e sete em Ressano Garcia.
De recordar que 97 vítimas foram a enterrar no dia seguinte em diversos pontos do distrito da Moamba, depois de terem sido prontamente identificados e recolhidos pelos respectivos familiares no local do sinistro.
Entretanto, ao longo da semana, o fluxo de pessoas junto da morgue do HCM continuava a ser registado. O processo não se afigurava fácil, sobretudo no que dizia respeito à identificação das vítimas, sendo certo que duas ou mais famílias chegavam a reclamar o mesmo corpo, outras nem sequer conseguiam localizar.
No local do sisnistro, suspeitava-se da existêncoa de bocados de carne humana espalhados entre os haveres deixados pelas vítimas.
No final de semana seguinte ao sinistro, tiveram lugar cerimónias religiosas conjuntas e deposição de flores, actos destinados a assinalar o oitavo dia.
HOSPITAL PROVINCIAL EM MAPUTO
Numa espécie de há males que vêm por bem, o acidente de Tenga veio dar origem ao Hospital Provincial da Matola, conforme ficou provado aquando da logística para o socorro das vítimas.
Conforme advogaram as autoridades da saúde na altura do sinistro, com um hospital provincial ter-se-ia encurtado distâncias e evitar congestionar a maior unidade sanitária do país.
O debate foi lançado e, a 30 de Junho de 2014, foi inaugurado o Hospital Provincial da Matola, cuja construção teve início em 2008.