18/09/2020
Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas.
As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor ridículas. A verdade é que hoje as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas).
O poema é constituído por 28 versos, divididos em uma estrofes irregulares, sem rimas ou padrão no número de versos ou na métrica.
Os versos continuam os seus anteriores, deixando a impressão de estarmos lendo um texto e não um poema. Essas características deixam claro o modernismo do autor.
Há na biografia de Pessoa vasta pastagem sobre a ambivalência da paixão deste por Ofélia Queiroz, a quem escreveu conhecidas cartas de amor, encarregando o heterónimo Álvaro de Campos do contraponto de dúvida sobre essa paixão.
Como habitualmente, em Fernando Pessoa, nada é simples, e neste poema sublima se no propósito de dizer uma coisa e o seu contrário, entregando ao leitor uma dúvida, e a escolha da solução. Olhando ao poema em si, as repetições ( parece nos reforço do ridículo) em todas as estrofes o quanto ele acha que as cartas de amor são ridículas, como se precisasse provar isso para alguém, ou quem sabe, pra si mesmo.
O eu lírico causa impressão de que está tentando defender sua opinião, convencer nos da mesma, criando um clima de angústia e até um pouco de carência, como alguém que só reclama das cartas e as esnoba não as têm ou as recebe...