08/11/2025
**Antifascismo cristão: uma urgência ética enraizada no Evangelho**
*Por que a fé exige resistir à desumanização política*
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No debate político contemporâneo, há quem acuse o antifascismo de ser uma postura “partidária”, “ideológica” ou mesmo “anticristã”. Mas uma leitura honesta da fé cristã — especialmente da Doutrina Social da Igreja (DSI) e do próprio Evangelho — revela precisamente o contrário: **ser antifascista é consequência direta da fidelidade a Cristo**. Não por moda ou militância, mas por coerência com o coração do cristianismo: a dignidade inviolável da pessoa humana, o amor solidário, a justiça, a liberdade e a paz.
Em tempos de avanço de discursos que exaltam o autoritarismo, marginalizam os mais fracos e normalizam o ódio, torna-se necessário afirmar com clareza: **o fascismo e o nazismo são estruturalmente incompatíveis com a fé cristã.** Não basta lamentar o passado — é preciso discernir o presente à luz da verdade evangélica.
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# # Dignidade humana: o princípio inegociável
A antropologia cristã é clara: **cada pessoa é imagem e semelhança de Deus** (Gn 1,27). Isso significa que **nenhuma vida pode ser hierarquizada, descartada ou instrumentalizada em nome de um projecto político**. As ideologias fascistas — históricas ou reconfiguradas — assentam na exaltação de um “nós” puro, superior ou legítimo, contra um “eles” impuro, invasor ou inferior. **Isto é idolatria identitária.**
A Doutrina Social da Igreja insiste: “A dignidade da pessoa é o fundamento de uma ordem justa” (Compêndio da DSI, §132). Por isso, **propostas que negam essa igualdade — como expulsões sumárias, p***s degradantes ou leis que distinguem cidadãos por sangue ou origem — não podem ser neutras para a consciência cristã.**
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# # Amor concreto, não abstrato
O mandamento “amar o próximo como a ti mesmo” (Lc 10,27) ganha carne no critério de Jesus: “o que fizeste ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizeste” (Mt 25,40). O amor cristão **não é uma emoção genérica**, mas **uma opção concreta pelos vulneráveis**: pobres, migrantes, presos, doentes, minorias. Ser cristão é colocar-se do lado de quem é marginalizado — não para afirmar superioridade moral, mas para **partilhar o peso da exclusão e resistir à injustiça.**
Ideologias que alimentam o medo do outro, que transformam o estrangeiro num bode expiatório ou que defendem “soluções finais” para os que incomodam, **violam frontalmente a ética cristã**. Não se trata de política de imigração — trata-se de **respeito pela humanidade do outro.**
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# # Direitos Humanos: convergência moral, não concessão política
Alguns sectores religiosos têm relativizado os Direitos Humanos, acusando-os de seculares, relativistas ou ideologizados. Mas a verdade é que **a Declaração Universal de 1948 — nascida como resposta aos horrores nazi-fascistas — ecoa profundamente valores cristãos**: dignidade, liberdade de consciência, igualdade de direitos, fraternidade.
O Papa João XXIII, na encíclica *Pacem in Terris* (1963), reafirmou explicitamente essa convergência, defendendo os Direitos Humanos como **expressão do bem comum e da ordem querida por Deus.** Desde então, todos os papas — de Paulo VI a Francisco — têm reforçado que **a fé cristã não pode ser cúmplice de regimes que negam liberdades fundamentais ou instrumentalizam a religião para oprimir.**
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# # A linguagem importa: o veneno do discurso de ódio
O fascismo não começa com tanques — começa com palavras. **Desumanizar verbalmente é o primeiro passo para excluir politicamente e, por fim, eliminar fisicamente.** Chamam-lhe “liberdade de expressão”, mas quando o insulto, a calúnia, a ameaça ou a mentira são sistemáticos e institucionalizados, estamos perante **uma violência discursiva que mata por dentro a democracia e o respeito mútuo.**
A Igreja tem alertado: **o ódio não é neutro nem inocente.** Promove divisões, legitima agressões e intoxica o espaço público. “Um cristão não pode ser cúmplice da cultura da violência verbal e simbólica”, lembra o Papa Francisco. E quando essa linguagem se torna norma em líderes políticos ou eclesiais, **urge resistir com firmeza, sem ceder ao cinismo nem à indiferença.**
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# # Antifascismo: fidelidade, não ideologia
Rejeitar o fascismo e o nazismo não é aderir a uma ideologia política — é **defender princípios morais e teológicos universais**: a sacralidade da vida, a fraternidade, a justiça com misericórdia, a liberdade de consciência e a paz com verdade. É pôr-se ao lado de Jesus, que **rompeu com os purismos do seu tempo, acolheu os excluídos e denunciou os sistemas de poder que oprimiam em nome da ordem.**
Em Portugal, várias vozes e estruturas da Igreja têm denunciado a retórica xenófoba e a manipulação religiosa ao serviço de projetos autoritários. Relembram que **a fé não pode ser usada como arma de exclusão**, nem o nome de Deus invocado para legitimar o medo ou o ódio.
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# # Uma bússola para discernir
Face à avalanche de propostas políticas, discursos inflamados e divisões crescentes, **os cristãos precisam de critérios claros.** Por isso, muitos grupos desenvolveram **ferramentas práticas** — como os “5 Te**es Cristãos” — para avaliar propostas à luz da fé e dos Direitos Humanos. A lógica é simples: **se uma proposta nega a dignidade, alimenta o ódio ou fragiliza o Estado de direito, então não é compatível com o Evangelho.**
Este não é um exercício de superioridade moral. É **um ato de fidelidade, lucidez e coragem.** E é também um serviço à democracia, à comunidade humana e à própria Igreja, que só é fiel ao seu Senhor quando se recusa a ser cúmplice da injustiça.
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# # Conclusão: um “sim” à esperança, um “não” à mentira
Ser cristão hoje é **dizer “não” a toda forma de fascismo — velho ou disfarçado — e “sim” a uma política com rosto humano**. Não por cálculo eleitoral ou afinidade partidária, mas por amor ao próximo, amor à verdade e amor a Deus. Porque **quando se quebra a dignidade de um só, todo o corpo sofre**. E porque seguir Jesus **é carregar a cruz uns dos outros, não erguê-la contra os outros.**
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