17/11/2025
Tive uma professora chamada Maria do Anjos, que, sempre que um de nós tinha um insucesso, nos punha orelhas de b***o. E por cada erro dava uma reguada na mão. As falhas castigavam-se com a dor. E as dificuldades pareciam não condizer com o aprender. Apesar desses exemplos e do: “Se precisar de lhe bater, esteja à vontade”, do antigamente, já não fazerem parte da cumplicidade entre pais e professores, o medo da escola e o medo no aprender continuam a existir. E a crescer!
Porque a pressão para que as crianças tenham sucesso não pára de aumentar. Porque a avaliação castiga muitíssimo mais quem aprende do que quem ensina, aquilo que se ensina, a forma como se ensina ou os lugares onde se ensina. E porque a distinção entre os “alunos normais” e aqueles que se dividem entre os quadros de honra, de mérito ou de excelência - ao premiar mais as notas do que a competência para transformar o conhecimento em instrumentos com que se pense o mundo e se aja sobre ele - lhes alimenta o medo de não estarem ao nível daquilo que esperamos deles.
Um quanto baste de medo faz bem; medo de mais faz mal. Mas o medo de errar, o medo de não saber ou o medo arriscar, de perguntar ou de duvidar, por mais que não precisem de orelhas de b***o, é muito exagerado no dia a dia das crianças. Só que, em vez delas falarem do medo de falhar, dão a entender que têm baixa autoestima. Em vez delas evitarem os erros, parecendo “preguiçosas”, assumem-se desmotivadas. Sempre que estão ansiosas nas aulas “sofrem” de falta de concentração. Quando vivem a aula numa aflição têm défices de atenção. E quando têm medo do seu medo vivem-no com ataques de pânico. E, no entanto, todas elas são sensíveis, inteligentes, atentas e intuitivas. E, já agora, adoram aprender e ter sucesso.
Aliás, se o medo nos protege daquilo que nos ameaça, como não hão elas de lhe dar mais atenção do que àquilo que se ensina? Como podem os nossos filhos divertir-se quando “aprendem” a medo? E se trabalhamos tanto para que eles sejam mais felizes, porque é que somos tão distraídos com o medo que a escola ainda alimenta, como se crescer pelo seguro fizesse do medo o condimento secreto indispensável ao seu voar?