09/01/2026
GRANDE REPORTAGEM: Esta é uma análise profunda sobre a odisseia portuguesa no Atlântico Norte, a espionagem renascentista e o tabuleiro geopolítico que hoje coloca a Gronelândia no centro de uma nova "Guerra Fria" climática.
O Império Português de D. Manuel I e a Conquista do Horizonte Gelado chamado Gronelândia
Enquanto o mundo moderno se surpreendeu com as propostas de Donald Trump para comprar a Gronelândia, a História revela que Portugal, sob o reinado de D. Manuel I, já tinha "fincado a bandeira" naquele território muito antes de qualquer potência americana sonhar com a sua existência. No início do século XVI, Portugal não era apenas uma nação costeira; era a vanguarda tecnológica e científica da Europa, operando a partir da Casa da Índia em Lisboa, o verdadeiro centro de inteligência do mundo de então.
A presença portuguesa na Gronelândia não foi uma colonização de povoamento, mas sim uma afirmação de soberania cartográfica e uma busca incessante por rotas. No Planisfério de Cantino (1502), um dos tesouros mais importantes da cartografia mundial, a Gronelândia aparece adornada com o pavilhão das quinas e a legenda "Terra del Rey de Portugall". Para os historiadores, como João Paulo Oliveira e Costa, esta era a "diplomacia do pergaminho": se a terra estava do lado português da linha definida pelo Tratado de Tordesilhas, ela pertencia, por direito divino e jurídico, à Coroa Portuguesa.
Os Irmãos Corte Real: Os Pioneiros do Nevoeiro
A exploração do Atlântico Norte foi liderada pela família Corte Real, oriunda dos Açores. Gaspar e Miguel Corte Real lançaram-se às águas gélidas em busca da "Passagem do Noroeste" que ligaria o Atlântico à Ásia. Em 1500 e 1501, estas expedições tocaram o que hoje chamamos de Terra Nova (Canadá) e avistaram a massa terrestre da Gronelândia.
O texto do Planisfério de Cantino é revelador da confusão geográfica da época: os navegadores acreditavam que aquelas serras espessas e geladas eram, na verdade, a "ponta da Ásia". O desconhecimento de que os Vikings já haviam estado lá séculos antes mostra como o conhecimento medieval se tinha perdido ou fragmentado. Os portugueses viam ali um território virgem, uma oportunidade de negócio e, acima de tudo, uma reserva estratégica para a pesca do bacalhau, que rapidamente se tornaria o "fiel amigo" da dieta nacional portuguesa.
O Caso Cantino: Espionagem e o "Roubo" do Mapa
A história do mapa em si parece saída de um romance de espionagem. Alberto Cantino não era um geógrafo, mas sim um agente ao serviço de Ercole d'Este, Duque de Ferrara. A sua missão em Lisboa era clara: descobrir o que os portugueses sabiam sobre o "Novo Mundo".
Nesta época, os mapas eram considerados segredos de Estado. Revelar as rotas marítimas ou a localização de novas terras era punível com a morte. Contudo, Cantino conseguiu subornar um cartógrafo da Casa da Índia para obter uma cópia clandestina do mapa padrão do reino. Este documento foi contrabandeado para Itália, permitindo que o resto da Europa visse, pela primeira vez, a dimensão real (embora ainda imprecisa) das Américas e a audácia das reivindicações portuguesas no Ártico.
O Contexto Histórico: De Vikings a Dinamarqueses
Para entender por que Portugal "abandonou" estas pretensões, é preciso olhar para a demografia. A Gronelândia tinha sido ocupada por Vikings vindos da Noruega a partir do século XI. Contudo, no século XV, devido à Pequena Idade do Gelo e à falta de recursos, as colónias europeias colapsaram, deixando o território entregue aos Inuítes.
Quando os portugueses lá chegaram, encontraram um vazio de poder europeu. A Dinamarca, que herdou as reivindicações norueguesas através da União de Kalmar, só voltaria a estabelecer uma presença sólida no século XVIII. Portugal, com um império espalhado pelo Brasil, África e Índia, tinha recursos humanos limitados. Manter uma colónia num deserto de gelo não era economicamente viável face às especiarias do Oriente e ao ouro que começava a surgir noutras paragens. A bandeira no mapa permaneceu como uma "declaração de intenções" que nunca se materializou em cidades, mas sim em direitos de pesca que duraram séculos.
A Situação Política Atual: O Novo El Dorado Ártico
Hoje, a Gronelândia já não é apenas uma curiosidade histórica num mapa de 1502. O território é uma região autónoma do Reino da Dinamarca, mas a sua relevância geopolítica atingiu níveis críticos por três razões fundamentais:
- O Degelo e as Novas Rotas: Com as alterações climáticas, o Ártico está a tornar-se navegável durante mais tempo. A "Passagem do Noroeste", que os Corte Real tanto procuraram, está a tornar-se uma realidade comercial, permitindo ligar a Ásia à Europa muito mais depressa do que pelo Canal de Suez.
- Riqueza Mineral Extrema: O subsolo da Gronelândia contém algumas das maiores reservas mundiais de terras raras, essenciais para a transição energética (baterias de carros elétricos, smartphones e turbinas eólicas). Além disso, há vastas reservas de petróleo e gás natural que se tornam acessíveis à medida que o gelo recua.
- Segurança e Soberania: A ilha é o "porta-aviões natural" do Atlântico Norte. Os Estados Unidos mantêm a Base Aérea de Thule (agora Base Espacial Pituffik) como peça central do seu sistema de defesa antimíssil. A crescente presença da Rússia no Ártico e o interesse da China em investir em infraestruturas gronelandesas (a chamada "Rota da Seda Polar") elevaram a tensão.
A tentativa de compra por parte da administração Trump em 2019, embora ridicularizada por muitos, foi um sinal claro de que Washington considera a ilha vital para a segurança nacional dos EUA. Atualmente, o governo local da Gronelândia (Naalakkersuisut) procura um equilíbrio delicado: aproveitar o interesse internacional para alcançar a independência total da Dinamarca, garantindo ao mesmo tempo que a exploração de recursos não destrua o modo de vida tradicional inuíte ou o ecossistema frágil.
Portugal, embora já não reivindique o território, mantém um interesse diplomático ativo. Recentemente, o país subscreveu declarações que defendem a autonomia da Gronelândia e a cooperação científica no Ártico, provando que, 500 anos depois de D. Manuel I, o interesse lusitano por aquela massa de gelo continua vivo, agora sob a forma de ciência e diplomacia multilateral no âmbito do Conselho do Ártico.
Carlos Alves de Sousa