23/11/2025
GRANDE REPORTAGEM: A COP30 que muitos ignoraram — e o futuro que exige presença
No coração da Amazônia, sob o calor úmido e as árvores milenares, desenrolou-se a COP30 — uma conferência que prometia mostrar ao mundo que, sim, é possível fazer diferente. Mas, para além da selva e da retórica verde, há vozes caladas, ausências gritantes e um apelo urgente: quem não esteve presente agora vai pagar caro pelo futuro.
André Corrêa do Lago, presidente da COP30, pediu soluções concretas aos países. Não é uma frase de efeito; é um grito de alerta. Ele sabe que é fácil discursar em plenárias climatizadas, mas difícil mesmo é apresentar metas claras, financiamento real e meios de implementação. A exigência dele não é poesia diplomática, mas uma convocação para ação — para sair da retórica e ir para o terreno.
Quem não veio — e o quanto isso arrisca o nosso futuro
A árvore que mais pesa nessa conferência não está na floresta, mas na ausência de muitos que deveriam estar no centro da mesa. Países estratégicos, fabricantes e exportadores de combustíveis fósseis apareceram — mas não se comprometeram verdadeiramente com sua eliminação. No documento final da COP30, todas as referências a combustíveis fósseis simplesmente evaporaram. O “mapa do caminho” para abandonar petróleo, carvão e gás foi retirado, substituído por promessas vagas e linguagem frouxa.
Há quem diga que foi uma escolha política explícita: os interesses do negócio prevaleceram sobre a urgência climática. Muitos cientistas reagiram com indignação, apontando que a omissão representa um retrocesso — é como se a ciência estivesse sendo traída, deixando de lado o único caminho viável para manter o aquecimento abaixo de limites perigosos.
Os críticos não estão sozinhos. Organizações da sociedade civil, ativistas e países que pressionavam por ambição f**aram frustrados: esta COP podia ter sido uma viragem real, mas ficou aquém do essencial. Para eles, a ausência de urgência no texto final traduz uma COP para as elites — para quem pode negociar sem sacrif**ar lucros, sem reduzir a exploração.
O fogo que não ardeu: os ganhos e seus limites
Sim, há alguns pontos positivos — e é importante reconhecê-los. O documento final prevê triplicar o financiamento para adaptação climática nos países mais vulneráveis. A conferência reconhece a importância dos povos indígenas, seus territórios e seus conhecimentos tradicionais. A ideia de “transição justa” para trabalhadores de setores poluentes aparece no discurso e em estratégias aspiracionais.
Mas tudo isso soa como concessão modesta diante da urgência real. Triplicar os fundos é bom, mas quem paga? Como e quando? Sem mecanismos claros, f**a na promessa. Reconhecer comunidades tradicionais é necessário, mas se não houver respeito real aos seus direitos, é só simbologia. E a “transição justa” pode virar só mais um eufemismo se os combustíveis fósseis continuarem dominando as fontes energéticas principais.
Quem se fez de invisível — e por que isso enfraquece toda a causa
Quando os grandes poluidores e os players fósseis recusam-se a desenhar um futuro sem si mesmos, eles estão dizendo: “vocês correm risco, nós não.” Essa omissão estratégica não é neutra — é profundamente irresponsável. É recusar pagar a sua parte da fatura.
E mais: a falta de ambição alimenta um ciclo perigoso. Se não houver compromisso explícito, como garantir que os fundos para adaptação vão realmente chegar onde são mais necessários? Como exigir medidas rigorosas de responsabilidade? Quem garante que os países continuarão pressionando depois que as luzes da COP se apagarem e as câmeras forem embora?
Desafios urgentes para o que vem a seguir
Pressão contínua da sociedade civil: ONGs, movimentos indígenas e ambientalistas devem manter a chama da mobilização acesa — pressionar por compromissos vinculantes, denunciar vazios, exigir responsabilidade real.
Transparência no financiamento: É imprescindível que o triplo dos fundos para adaptação não seja apenas retórica. Precisa haver clareza sobre quem contribui, como o dinheiro será aplicado, e mecanismos para medir os impactos de fato.
Transição energética real: Não basta falar em “baixo carbono” ou “futuro verde”: é urgente estabelecer metas concretas para reduzir o uso de fósseis, definir prazos, cronogramas, estratégias específ**as.
Combate à desinformação: As negociações climáticas são frágeis e complexas. A desinformação pode minar o consenso, legitimar retrocessos. É necessário um esforço coletivo para divulgar dados científicos, denunciar falsos acordos e garantir que o debate público seja sério e informado.
Responsabilidade dos ausentes: Países e empresas que se esquivaram da parte difícil da transição precisam ser cobrado — agora e nas próximas COPs. Ausência não pode equivaler a impunidade.
Inclusão equitativa: A conferência em Belém destacou os povos indígenas, mas a participação física e simbólica não basta. É essencial garantir que sejam protagonistas nas decisões, com voz real e poder decisório nas políticas climáticas.
Um apelo — e uma advertência
A COP30, aceita ou não, f**ará na história — mas não apenas pela sua realização na Amazônia. Ficará marcada pela tensão entre o que poderia ter sido e o que acabou sendo, entre promessas e omissões, entre discurso verde e realpolitik do petróleo.
André Corrêa do Lago pode exigir soluções concretas, pode convocar os países a agir de verdade. Mas ele não pode forçar compromissos onde não há vontade política real. Se os que mais têm a perder preferem a omissão, então cabe a nós — sociedade civil, ativistas, povos vulneráveis — manter a pressão, fazer valer a urgência.
Se a Amazônia é o pulmão do mundo, não podemos permitir que ela assista de fora enquanto os combustíveis fósseis continuam consumindo nosso futuro. Ou respiramos juntos, com justiça e ambição, ou a inércia de hoje será a tragédia de amanhã.
Sylvie Thorn
COP30 -Belém / Brasil