09/09/2026
Pela minha tez alva não parece, mas tenho raízes bem fortes na Índia, na antiga Goa portuguesa, da parte do meu pai.
Já vos falei algumas vezes sobre os meus avós maternos, já que foi com eles que cresci e ainda os tenho comigo. Mas, quando escrevi sobre as Mulheres da Minha Alma, pensei muito na minha Avó Nana (Armanda) e este desafio veio ao meu encontro.
Lembro-me pouco dela. Ainda assim, só tenho boas memórias. Desde o seu maravilhoso «arroz amarelo», às tardes de colo e brincadeiras nos tapetes da sala, ou na cadeira de baloiço do meu Avô Luís, a ser a princesa da minha avó e das minhas tias. Este «arroz amarelo» não era mais do que um arroz de frango com legumes, mas «encharcado» de curcuma, especiarias mágicas e amor, muito amor da Avó.
Não me recordo que idade tinha quando a perdi, mas sei que, desde então, a sinto como uma guia minha — não propriamente um anjo da guarda, mas uma ligação forte que vem do Universo para mim, do Universo em que acredito. Para me dar força e alento sempre que olho para as suas fotografias ou para o meu pai e para a minha tia do meio – dos quatro filhos, são quem mais herdou os seus traços.
É a partir das histórias que me são contadas que sei que a minha Avó era uma mulher extraordinária. Podia ser comum, mas não foi. Tornou-se comum quando pôde finalmente acalmar o seu coração e viver descansada em Lisboa, ainda que com apertos no peito porque, afinal, não foi nada fácil para nenhum deles abandonar a cidade e o país que sempre conheceram, em 1961. Sobretudo, pelo motivo que foi.
Quero acreditar que é da minha Avó Nana que vem boa parte da minha resiliência. Criar quatro filhos, tanto lá como cá, não foi propriamente fácil. Um deles foi mandado para a guerra na Guiné. O outro tinha amigos e companheiros de trabalho procurados pela PIDE e poderia ser igualmente apanhado. Uma filha que acabou por emigrar para Moçambique, antes de se estabelecer de vez em Lisboa, e a segunda filha que trabalhava e estudava para realizar os seus sonhos e ajudar em casa.
O meu Avô chegou a Lisboa depois deles e, com ele, veio também a depressão e uma tristeza profunda, uma perda de propósito, até que a minha Avó o pôs nos eixos para voltar a trabalhar, era preciso prover para a casa e para a família e só os seus trabalhos de costura não chegavam.
Foram vidas difíceis, mas não me lembro de ver a minha avó sem um sorriso, sem um mimo para a sua «Rosinha» e para o seu «Dôdô». Embora por pouco tempo, fui muito mimada pela Avó Nana.
Depois disso, foi sonhar acordada com eles. Como seria se ainda estivessem por cá? Estariam eles orgulhosos da mulher que sou? Que conselhos me dariam? Dar-me-iam força e apoio em todas as minhas decisões e abrir-me-iam os olhos quando algo pudesse correr mal?
Sei que, há uns anos, em conversa com o meu pai, ele me disse que eu sou muito parecida com o meu Avô. Posso f**ar calada durante horas, mas, quando a palavra certa me é dita, eu solto a língua e não me calo! E, ainda, que os meus silêncios são ensurdecedores. A ficha demorou a cair, mas acabei por entender e respondi-lhe que o mundo não iria aguentar dois nativos de Peixes como nós, que ele subiu para eu poder descer – o meu avô fazia anos a 1 de março e eu faço a 20 de março. O meu pai riu-se. Afinal, também tem curiosidade e gosta de astrologia, mas preferiu falar-me mais sobre a personalidade do seu pai, mais reservado no fim de vida, e de como se sentiu um filho indesejado – afinal, já havia um filho varão na família –, mas acabou por ser ele o grande companheiro do pai, de conversas e horas a ouvir música na rádio. E ter sido ele a compreender melhor os seus estados de espírito e a entender que as nuvens de fumo sobre a sua cabeça não eram só do tabaco.
Curiosamente, quando ia a casa dos meus Avós Faro, era na cadeira de baloiço que eu me sentia melhor a brincar com os meus peluches.
Também gosto de pensar que, se o tivesse conhecido e se eu tivesse passado mais tempo com a minha Avó, seria a neta mais mimada de sempre! Assim como sou uma sobrinha e filha igualmente mimada. Acredito que da sala para a cozinha se ouviria um silêncio enternecedor de Avô e neta e que, na cozinha, a minha Avó estaria a passar todas as suas receitas ao meu irmão. Tenho um primo mais velho, que foi igualmente mimado, até virem os primos pequenos, quase 20 anos depois, e também ele nos mimou muito.
Há algo que amo nesta família Souza e Faro. Temos todos traços muito parecidos. Se formos fotografados só dos olhos para cima, somos muito semelhantes, até mesmo os filhos e as netas do meu primo. Temos olhos grandes, amendoados, brilhantes, poderia, até, dizer «tipicamente indianos», com eyeliner f**am maravilhosos – modéstia à parte, é só verem as minhas fotografias.
Por outro lado, será que seria deserdada por não gostar de comida picante? Comida goesa, sim, gosto, mas pimentas, piripiris e semelhantes, socorro! E será que recuperaria essa herança por ter jeito para as línguas e saber «falar» konkaní? – uma das muitas línguas oficiais da Índia, falada em Goa, a par com o português, o inglês e o hindi. Tudo bem que só sei dizer disparates e «obrigada», mas tenho jeito. Se quisesse aprender e dedicar-me totalmente, falaria com mais facilidade do que falo inglês.
Por norma, sou muito reservada quanto a estas minhas raízes. Não por medos ou vergonhas. Jamais! Mas por sentir toda uma força mais espiritual – caras leitoras, tenho Budas um pouco por todo o meu quarto –, mais mística e que, se calhar, até me liga à astrologia e ao tarot. Afinal os hindus leem cartas astrais para tudo, sobretudo para os casamentos arranjados. Neste aspeto, ainda bem que a minha família é lusodescendente! Eu com um casamento arranjado?! Socorro, Paizinho! Adoro saris e roupas coloridas. Adoro a leveza de espírito. Podem estar carregados de problemas, mas há sempre sorrisos. A alegria será sempre mais forte.
E sinto essa força e resiliência que herdei das minhas raízes indianas. Sou mais reservada, mas imensamente orgulhosa e feliz por ter ritmos e cores diferentes no sangue, na história familiar, no peito!
Nunca fui à Índia, mas espero um dia conseguir ir. Quero ter a força emocional e psicológica necessárias para dar de caras com toda aquela realidade. Visitar a Goa onde a minha família cresceu, onde está esta metade das minhas raízes. Pôr os pés onde, um dia, os que me são tão caros puseram. Não me sinto incompleta, mas falta-me esta centelha física para completar a espiritual.
Mais do que Shiva, Ganesh, Lakshmi e todas as outras divindades que adoro, os meus maiores guias espirituais são os meus Avós Souza e Faro. Obrigada por terem tido a coragem de sair de Goa. Obrigada por terem vindo parar a Lisboa. Que eu saiba honrar-vos sempre e para sempre.
— Inês Biu Faro.
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