18/06/2026
O BARÃO E O CAPITÃO
– artigo de opinião de José Afonso Baptista, no âmbito das rubricas “Escola agrilhoada” e “Olhares”
A ESTÁTUA QUE NÃO QUERDESCER DO PEDESTAL
Há livros que nos ficam na memória como certas paisagens vistas da janela de um comboio antigo: não sabemos se as recordamos ou se as inventámos, mas continuam a acenar-nos ao longe. “Viagens na Minha Terra” é um desses livros. Da infância, guardo sobretudo duas figuras: Joaninha, a menina dos rouxinóis, e Carlos, o rapaz que partiu pobre, regressou barão e perdeu pelo caminho o encanto que o povo lhe tinha oferecido sem pedir nada em troca.
Joaninha era a pureza que não se compra; Carlos, a grandeza que se paga caro. E, talvez por isso, quando penso no romance, não me lembro tanto da intriga, mas dessa sensação amarga de ver alguém regressar maior – e, no entanto, menor.
E é aqui que a literatura, sempre generosa, me oferece uma ponte para o presente. Porque também, no nosso futebol, há um Carlos moderno, um herói que partiu pobre, conquistou mundos, ergueu troféus, acumulou glória e ouro. E que agora regressa sempre – não à terra, mas ao relvado – com a mesma aura de barão, embora já sem o fulgor que o fez príncipe. [...]
Créditos fotográficos: christophpeters_net – Pixabay
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