06/04/2026
AMIGOS QUE NÃO SE ESQUECEM
Poderá o leitor pensar que insisto em recordar pessoas que, não sendo as mesmas, acabam por ser como que suas vizinhas na memória. Mas talvez assim sejamos todos: guardiões de rostos, vozes e afetos que o tempo não apaga. Como canta Jorge Fernando, “há coisas que marcam a alma e a vida da gente” — e há mesmo.
Eu, que já caminho há largos anos pelas estradas da vida, carrego um portefólio invisível feito de memórias. Nele vivem muitos dos que já partiram, mas que continuam, teimosamente, a habitar o nosso coração. Recordá-los a todos seria tarefa impossível — porque a memória, tal como a vida, nunca pára: atrás de uns, vêm outros.
Abril traz-me sempre um nome — Fernando Braga. Faz agora 42 anos, salvo erro, que nos deixou. Teria feito 38 em agosto de 1984.. Partiu cedo demais, num descuido fatal com a própria saúde. E como se a dor não bastasse, pouco depois seguiu-lhe o pai, José Braga — o nosso “Papai Braga”, como lhe chamava, com ternura, Maria do Carmo Duarte, que nestes dias passados se juntou a eles, notícias enviadas de São Paulo pela amiga Teresa Isnard. Diz-nos a vida, por vezes, que há reencontros que só o céu permite.
Papai Braga era uma dessas raras figuras que parecem maiores do que o seu tempo: culto, atento, profundamente humano, amante da natureza e de Deus. No filho deixou sementes dessas virtudes. E Fernando — esse — era terra fértil. Amava a Serra da Estrela com uma devoção quase sagrada. Contagiou-me. E juntos, entre trilhos e silêncios de montanha, fizemos algo que hoje guardo como herança: o amor pela nossa Estrela.
Penso, por vezes, nos mais novos — mesmo aqueles que já contam meio século de vida — e que não tiveram o privilégio de os conhecer. Deveriam procurá-lo na memória dos outros, nos sinais que deixou. Foi presidente da Junta de Unhais da Serra, e o seu nome ficou gravado numa rua — como f**am gravados os que, mesmo partindo, não partem totalmente.
E não foi o único.
Silvestre Gaudêncio, homem das letras e das artes, deixou-nos páginas que ainda hoje respiram. A sua monografia sobre Unhais da Serra é mais do que um livro — é um pedaço de identidade. Tive o privilégio de dar voz a alguns dos seus poemas. Em 1973, no Teatro Monumental de Lisboa, cantei um deles — Adeus! — perante militares marcados pela guerra. Ainda hoje, ao lembrá-lo, a emoção regressa intacta.
Bernardino da Fonseca partiu quando eu ainda era rapaz, mas a sua presença ficou. Lembro-me dele como se lembram os vultos grandes: com respeito silencioso. O seu livro “As Contas que Eu Rezei”, acompanhou esse sentimento.
E outros vieram, outros escreveram, outros marcaram — mas esses f**arão para um outro tempo de memória.
Também não esqueço Eduardo Ramos — homem simples, sorriso fácil, inteligência construída com esforço. Fez da eletrónica a sua linguagem, da rádio e da televisão o seu mundo. A paramiloidose levou-o cedo demais, como levou tantos outros da nossa terra, num silêncio que ainda custa aceitar.
E depois há aqueles nomes que surgem de repente, como se o passado abrisse uma janela: os irmãos Diogo, com o seu “sonoro”, a dar vida às festas e aos encontros de uma Unhais que então fervilhava de gente e de alegria.
Tantos. Tantos mais.
Todos mereciam um palco. Luz. Aplauso. Mas f**am — como sempre f**am — no teatro íntimo da memória de cada um.
Recordo, com particular nitidez, um dia de março de 1984. Numa caminhada da ASE, entre giestas e piornais, com Fernando Braga e José Carlos Diamantino, entre o Covão da Ametade e as Penhas da Saúde. Já se adivinhava nele alguma fragilidade. Mas a montanha… ah, a montanha! Chamava-o com uma força tal que a doença parecia pequena, quase inexistente, perante aquele amor.
Poucos dias depois, a 5 de abril, foi a enterrar. Talvez um sábado. No domingo, houve uma prova de atletismo na vila. Coube-me a mim entregar os prémios. Enganei-me em nomes, em clubes, em tudo. Ouvi assobios. Mas não estava ali. O meu pensamento estava longe, perdido no silêncio da ausência. Ainda hoje não me conformo.
Lembro também o professor Ilídio, que ajudou, nesse dia, a organizar a classif**ação da prova. Pequenos gestos que f**am, como tudo o que é verdadeiro.
E há uma imagem que me acompanha, como se fosse um eco antigo:
Perguntava José Braga à Serra da Estrela: — Ó Serra, não viste por aí o Fernando?
E a Serra, eterna e sábia, parecia responder: — Como assim? Se também eu o procuro…
António Duarte
23.03.26
Abraços.