Correio de Unhais

Correio de Unhais Jornal regional/regional para servir as pessoas da região e a cultura em geral.

https://youtu.be/ybRTT9hxNjo
10/05/2026

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QUADRO DE HONRAZÉ RUSSO.Fracos, mas Fortes.Pelas oito da manhã, a estrada descia em silêncio para a Covilhã. Era sempre ...
07/05/2026

QUADRO DE HONRA

ZÉ RUSSO.

Fracos, mas Fortes.

Pelas oito da manhã, a estrada descia em silêncio para a Covilhã. Era sempre a mesma rotina: o corpo cansado, mal dormido por uma dor antiga que nunca o largava. Caminhava devagar, ainda meio preso à noite, quando o som apareceu — um assobio leve, despreocupado, quase teimosamente feliz.
Olhei.
Lá ia ele, estrada abaixo, como se o mundo fosse simples: o Zé Russo. Meu primo.
Havia nele algo impossível de ignorar. Talvez o cabelo claro, de um louro raro naquelas terras, que desde criança me f**ara gravado na memória. Era a sua marca — visível, inconfundível — mas não era só isso. Havia qualquer coisa no seu andar, no seu jeito de estar, como se carregasse pouco peso, mesmo quando a vida lhe dava tudo para o contrariar.
Durante anos, não o vi.
Até aquele dia nas vindimas.
Eu e a Otávia estávamos no quintal, mãos manchadas de uva, quando uma cabeça loira surgiu junto ao portão.
— Ó! — chamou.
Era ele.
A alegria foi imediata, limpa, como se o tempo não tivesse passado. Ficámos ali, a falar, a rir, a recuperar o que parecia perdido. Foi então que soubemos por onde tinha andado: casas de acolhimento em Penacova e Semide, anos longe, longe demais para quem ainda era quase menino.
Depois Lisboa. O Laranjeiro. Os pais.
Mas a vida, às vezes, puxa-nos para onde fomos verdadeiramente feitos. E o Zé voltou. Voltou a Unhais. Voltou à terra, à avó Eufrásia, às raízes que não se explicam.
E trabalhou.
Trabalhou como poucos. Na floresta, na sementeira, de enxada nas mãos, de sol a sol, entre pedras, pó e silêncio. Trabalho duro, sem aplauso, sem descanso.
Mas a vida não lhe foi leve.
Houve acusações. Injustas, dizem. Pesadas, certamente. Coisas que deixam marca, que não se limpam com o tempo. A família teve de intervir. Houve momentos em que o mundo parecia mais duro do que devia.
E, ainda assim, ele assobiava.
Lisboa voltou a chamá-lo. O serviço militar levou-o até Angola, onde o corpo não resistiu às humidades e à tal cacimba que ele próprio nunca esqueceu. Regressou. Tentou de novo. Trabalhou onde pôde.
Até que, depois do 25 de Abril, voltou de vez.
Entrou na Penteadora. Ficou.
Ficou quase cinquenta anos. E quando chegou a reforma, não parou logo — como se parar não fosse coisa para ele. Ainda trabalhou mais dois anos, como quem insiste em fazer parte do mundo até ao fim.
Em Unhais, o Zé Russo tornou-se figura. Não dessas que se impõem — mas das que f**am. Das que as pessoas conhecem sem saber bem porquê.
Porque ele tinha um dom raro: perante a dificuldade, virava-lhe as costas… e sorria.
Dias atrás, fui vê-lo ao hospital.
Uma queda. A coluna afetada. Pensei que o encontraria só, ou abatido. Mas não. Havia gente. Gente boa. Gente que o foi acompanhando pela vida, como quem reconhece, em silêncio, o valor de um homem.
Fiquei surpreendido. E, de certa forma, descansado.
Mais tarde, depois de uma cirurgia difícil, encontrei-o nos cuidados intensivos. Dormia, rodeado de tubos, num cenário que impõe respeito a qualquer um.
O enfermeiro tocou-lhe na mão. Ele acordou devagar.
Aproximei-me.
— Então, Zé… estás bem disposto?
Ele levantou ligeiramente a cabeça, olhou para mim, e com a naturalidade de quem diz o óbvio, respondeu:
— Eu estou sempre bem disposto.
E voltou a adormecer.
Ficámos os dois, eu e o enfermeiro, em silêncio.
Porque há respostas que não se explicam.
Vivem-se.
O Zé Russo — José Luís Ferreira Sebastião, de seu nome completo — nunca teve uma vida fácil. Mas também nunca desistiu dela.
E talvez seja isso que o define.
Não a dureza do caminho.
Mas a forma como o percorreu.

António Duarte
TÓ BELMIRO. 22.04.26.
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Ana Sofia Paiva, distinta jornalista e colaboradora do Correio de Unhais, entrevistou Natércia Salgueiro Maia. Também eu...
10/04/2026

Ana Sofia Paiva, distinta jornalista e colaboradora do Correio de Unhais, entrevistou Natércia Salgueiro Maia. Também eu estive na Escola Prática de Cavalaria, em Lisboa, no 25 de Abril, e fiquei surpreendido com os agradecimentos dirigidos ao militar pelo seu desempenho nesse dia histórico. Assim, convido o leitor interessado a ler e a tirar as suas próprias conclusões.

No link será mais nítida a imagem de texto.

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06/04/2026

AMIGOS QUE NÃO SE ESQUECEM

Poderá o leitor pensar que insisto em recordar pessoas que, não sendo as mesmas, acabam por ser como que suas vizinhas na memória. Mas talvez assim sejamos todos: guardiões de rostos, vozes e afetos que o tempo não apaga. Como canta Jorge Fernando, “há coisas que marcam a alma e a vida da gente” — e há mesmo.

Eu, que já caminho há largos anos pelas estradas da vida, carrego um portefólio invisível feito de memórias. Nele vivem muitos dos que já partiram, mas que continuam, teimosamente, a habitar o nosso coração. Recordá-los a todos seria tarefa impossível — porque a memória, tal como a vida, nunca pára: atrás de uns, vêm outros.

Abril traz-me sempre um nome — Fernando Braga. Faz agora 42 anos, salvo erro, que nos deixou. Teria feito 38 em agosto de 1984.. Partiu cedo demais, num descuido fatal com a própria saúde. E como se a dor não bastasse, pouco depois seguiu-lhe o pai, José Braga — o nosso “Papai Braga”, como lhe chamava, com ternura, Maria do Carmo Duarte, que nestes dias passados se juntou a eles, notícias enviadas de São Paulo pela amiga Teresa Isnard. Diz-nos a vida, por vezes, que há reencontros que só o céu permite.

Papai Braga era uma dessas raras figuras que parecem maiores do que o seu tempo: culto, atento, profundamente humano, amante da natureza e de Deus. No filho deixou sementes dessas virtudes. E Fernando — esse — era terra fértil. Amava a Serra da Estrela com uma devoção quase sagrada. Contagiou-me. E juntos, entre trilhos e silêncios de montanha, fizemos algo que hoje guardo como herança: o amor pela nossa Estrela.

Penso, por vezes, nos mais novos — mesmo aqueles que já contam meio século de vida — e que não tiveram o privilégio de os conhecer. Deveriam procurá-lo na memória dos outros, nos sinais que deixou. Foi presidente da Junta de Unhais da Serra, e o seu nome ficou gravado numa rua — como f**am gravados os que, mesmo partindo, não partem totalmente.

E não foi o único.

Silvestre Gaudêncio, homem das letras e das artes, deixou-nos páginas que ainda hoje respiram. A sua monografia sobre Unhais da Serra é mais do que um livro — é um pedaço de identidade. Tive o privilégio de dar voz a alguns dos seus poemas. Em 1973, no Teatro Monumental de Lisboa, cantei um deles — Adeus! — perante militares marcados pela guerra. Ainda hoje, ao lembrá-lo, a emoção regressa intacta.

Bernardino da Fonseca partiu quando eu ainda era rapaz, mas a sua presença ficou. Lembro-me dele como se lembram os vultos grandes: com respeito silencioso. O seu livro “As Contas que Eu Rezei”, acompanhou esse sentimento.

E outros vieram, outros escreveram, outros marcaram — mas esses f**arão para um outro tempo de memória.

Também não esqueço Eduardo Ramos — homem simples, sorriso fácil, inteligência construída com esforço. Fez da eletrónica a sua linguagem, da rádio e da televisão o seu mundo. A paramiloidose levou-o cedo demais, como levou tantos outros da nossa terra, num silêncio que ainda custa aceitar.

E depois há aqueles nomes que surgem de repente, como se o passado abrisse uma janela: os irmãos Diogo, com o seu “sonoro”, a dar vida às festas e aos encontros de uma Unhais que então fervilhava de gente e de alegria.

Tantos. Tantos mais.

Todos mereciam um palco. Luz. Aplauso. Mas f**am — como sempre f**am — no teatro íntimo da memória de cada um.

Recordo, com particular nitidez, um dia de março de 1984. Numa caminhada da ASE, entre giestas e piornais, com Fernando Braga e José Carlos Diamantino, entre o Covão da Ametade e as Penhas da Saúde. Já se adivinhava nele alguma fragilidade. Mas a montanha… ah, a montanha! Chamava-o com uma força tal que a doença parecia pequena, quase inexistente, perante aquele amor.

Poucos dias depois, a 5 de abril, foi a enterrar. Talvez um sábado. No domingo, houve uma prova de atletismo na vila. Coube-me a mim entregar os prémios. Enganei-me em nomes, em clubes, em tudo. Ouvi assobios. Mas não estava ali. O meu pensamento estava longe, perdido no silêncio da ausência. Ainda hoje não me conformo.

Lembro também o professor Ilídio, que ajudou, nesse dia, a organizar a classif**ação da prova. Pequenos gestos que f**am, como tudo o que é verdadeiro.

E há uma imagem que me acompanha, como se fosse um eco antigo:

Perguntava José Braga à Serra da Estrela: — Ó Serra, não viste por aí o Fernando?

E a Serra, eterna e sábia, parecia responder: — Como assim? Se também eu o procuro…

António Duarte

23.03.26

Abraços.

QUADRO DE HONRASENHORA DOS ANJOS (100 ANOS)Assim chamavam a senhora Maria dos Anjos, pelo menos foi assim que me aperceb...
09/03/2026

QUADRO DE HONRA

SENHORA DOS ANJOS (100 ANOS)

Assim chamavam a senhora Maria dos Anjos, pelo menos foi assim que me apercebi. Em 1957 vieram para Unhais da Serra, vindos de Vasco Esteves de Cima. Eu tinha então seis anos. Era verão. Saí de casa de meus pais para ir brincar e fui da Terça ao Padre Zé. Sabe o leitor onde são estes locais? Ali, logo a seguir à Almoinha. Antes da curva, do lado esquerdo de quem desce, há uma casa amarela que, em 1957, creio que nem cor tinha: seria caiada de branco e já bastante degradada.

Ali morava a senhora Maria Gertrudes, já viúva do senhor Lourenço, e a sua filha Lurdes. Existia também uma fonte pública, pois ainda não havia água canalizada nas casas. Em frente à casa amarela, ainda hoje lá está uma casa grande; suponho que tenha sido a fábrica do Padre Zé, ou talvez a que está em ruínas logo a seguir, antes da casa de meu pai, Belmiro.

Recordo bem o terrível incêndio do armazém por detrás da casa da senhora Maria. Era um palheiro, cheio de palha. Suponho que ali tivesse funcionado, em tempos, uma fábrica. No início da casa grande há ainda hoje uma casa de habitação. Ali morou a família Meireles, vinda de Espinho: o Olímpio e a sua família.

Numa dessas manhãs fui ter com a vizinha Lurdes e qual não é o meu espanto quando vejo, à janela da dita casa grande, uma senhora e um garoto com menos um ano do que eu. Era o António Marques Mendes e a sua mãe.

— Venha daí o menino brincar aqui com o Tó — disse a senhora Lurdes.

E assim foi, e nunca mais nos separámos. Depois veio o resto da família: a Manuela, a Fernanda, a Isabel, a Lurdes e a Ana, que suponho já ter nascido em Unhais.

A Manuela, o pai João e o irmão Eurico tinham vindo para Unhais em 1954. A Manuela veio mais cedo para fazer a escola na então aldeia, enquanto os irmãos João e Eurico entraram para a Penteadora. Recordo que o senhor João “Barrocas”, como era conhecido — João Luís Mendes era o seu verdadeiro nome — vinha de bicicleta desde Vasco Esteves. Era azul; lembro-me bem dela.

Assim ficou mais rico o nosso grupo do Padre Zé: os Belmiros, os Diamantinos, os Barrocas, a família do senhor José Alves, o homem das bombas de gasolina, e os filhos do senhor da serração — o Luís, o José e o Manuel Alexandre. Só naquela zona seríamos cerca de vinte pessoas. Quando brincávamos às escondidas na estrada, era uma alegria.

Um dia, eu, o Tó e o Zeca Carinhas, que também andava por ali, fomos às cerejas a uma árvore logo por cima do barroco que vem da Risca. Acabei no chão. Nunca me esqueço. Caí de costas e senti apenas uma grande falta de ar. Ia-me matando!

Outro dia, tinha eu oito anos, o meu pai pediu-nos para irmos todos brincar para casa da senhora dos Anjos. Milagre, pensei! Todos a brincar para casa da vizinha? Afinal, nesse dia nascia a nossa irmã Cecília e, por isso, houve recreio forçado — que, para mim, foi uma festa.

Começo a recordar o passado e quase me esqueço da senhora dos Anjos. Que eu saiba, foi sempre doméstica: trabalhava para a família e lavava roupa com as vizinhas, na gelada água da levada que vinha do açude da Pinha. Era uma casa cheia, apesar de, no início, o chefe de família fazer verdadeiros milagres com o ordenado de segurança da Penteadora. Com o decorrer dos anos, a casa tornou-se próspera e rica em tudo, graças à boa gestão do pai João — que já fora comerciante em Vasco Esteves de Cima — e ao trabalho das filhas e do filho António.

No meio de toda esta família estava a vizinha Maria dos Anjos que, dedicada ao seu papel de mãe e doméstica, geriu de forma superior os destinos daquela casa. Já há uns anos adoeceu e, pelo que me apercebi, a família deixou transparecer que a situação era grave, ou pelo menos preocupante. Foi há cerca de quinze anos. Felizmente, tudo acabou por ser controlado.

Entretanto, construíram uma casa na Bouxinha, para onde foram morar. João Luís Mendes ainda ali viveu até aos noventa e cinco anos, e a senhora dos Anjos já passou dos cem, completados a cinco de fevereiro. Houve festa rija e merecida, num destes dias do início do mês. Fui convidado, mas não pude estar presente por diversos motivos.

Muito haveria ainda a contar. Os anos passam e a cabecinha f**a mais gasta.

Obrigado, mãe e vizinha Maria dos Anjos, pela sua agradável companhia durante tanto tempo, agradecimento extensivo ao senhor João e aos seus filhos. Que a vida continue até que Deus queira — e os Anjos.

António Duarte (Tó Belmiro) 24/02/2026.

16/01/2026

Assembleia de Freguesia
De Unhais da Serra.

Após a publicação do último jornal Correio de Unhais, a situação da Junta e Assembleia de Freguesia ficou normalizada. O presidente da Assembleia foi substituído e a autarquia está a trabalhar dentro da sua normalidade. Quanto às dívidas da Junta a lei e a ordem, a seu tempo as coisas serão resolvidas. As autarquias têm regras de gestão governamentais muito rigorosas e portanto, qualquer leitor que tenha dúvidas, procure esclarece-las na autarquia.
Antonio Duarte.

19/12/2025

No valor de 25 mil euros, o prémio é atribuído pelo presidente da Assembleia da República, mediante proposta do júri, que funcionará junto da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdade

Endereço

UNHAIS DA SERRA
Covilhã

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