Carlos Filipe Photography

Carlos Filipe Photography Somos uma pequenina família que junta o amor à fotografia com a descoberta de momentos,imagens, sentimentos e histórias que fotografamos para partilhar.

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O CEMITÉRIO DOS CORAÇÕESEu tinha apenas quatro anos quando visitei pela primeira vez o Jardim Zoológico de Lisboa e, ape...
21/08/2026

O CEMITÉRIO DOS CORAÇÕES

Eu tinha apenas quatro anos quando visitei pela primeira vez o Jardim Zoológico de Lisboa e, apesar de ser impossível lembrar-me de tudo aquilo que vi nesse dia, há uma coisa que ficou gravada na minha memória de uma forma que nem o tempo conseguiu apagar. No meio de um lugar cheio de animais, pessoas, sons e movimento, descobri um pequeno espaço que, para mim, acabou por ser muito mais importante do que tudo aquilo que existia à sua volta: um cemitério de animais.

Naquela idade não tinha provavelmente palavras suficientes para explicar o que estava a sentir, nem conseguia compreender verdadeiramente a dimensão daquilo que estava diante dos meus olhos, mas lembro-me perfeitamente de f**ar impressionado com aquelas pequenas sepulturas, com os nomes, com as datas e, sobretudo, com a ideia de que alguém tinha amado aqueles animais o suficiente para querer que eles fossem lembrados depois de partirem. Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que percebi, mesmo sem saber explicar, que a vida de um animal podia deixar uma marca profunda na vida de uma pessoa.

O mais curioso é que nunca mais me esqueci daquele lugar. Ainda hoje quando me falam do jardim zoologico o meu pensamento vai diretamente para aquele cantinho , bem lá em cima, ao pé do urso pardo.

Ao longo da minha vida voltei ao Jardim Zoológico de Lisboa mais duas vezes e existe um detalhe que ainda hoje me emociona quando penso nele: nas duas ocasiões paguei o bilhete de entrada, atravessei as portas do Zoo e fui diretamente para o cemitério. Não fui procurar os animais que estavam nas jaulas, não fui à procura das atrações que provavelmente interessavam a qualquer criança ou adulto que ali estivesse, nem sequer senti necessidade de voltar a conhecer o resto do espaço. Fui simplesmente para aquele pequeno cantinho, como se uma criança de quatro anos tivesse guardado dentro de mim um mapa que o adulto nunca perdeu.

Não consigo exprimir embora tente explicar a quem desconheça que ele existe mas a minha mente f**a cheia de adjetivos que não consigo colocar em ordem para o poder descrever... Como podem alguns metros quadrados de terreno nos inundar a mente de um sabor agridoce de tristeza e contemplação? Será sempre dos locais que mais me marcou na vida e me marca por tudo aquilo que representa. Não sei porquê.

Talvez tenha sido porque aquele lugar me tinha mostrado qualquer coisa que eu nunca mais consegui esquecer. Mostrou-me que os animais têm nomes, têm histórias, fazem parte das nossas famílias, deixam saudades e podem ser tão importantes na nossa vida que, mesmo depois da sua morte, sentimos necessidade de criar um lugar para continuar a falar deles.

Talvez seja por isso que, tantos anos depois, quando olho para o caminho que escolhi, não consigo deixar de pensar naquele pequeno cemitério. Hoje dedico a minha vida a fotografar animais, a contar as suas histórias, a mostrar a sua beleza, a tentar encontrar-lhes famílias e, acima de tudo, a lembrar às pessoas que por detrás de cada animal existe uma vida que merece ser respeitada e uma história que merece ser conhecida. Não sei se aquele lugar teve alguma influência nas escolhas que fiz ao longo da vida, mas gosto de imaginar que teve.

Há muitas pessoas que visitam o Jardim Zoológico de Lisboa sem sequer saber que aquele cantinho existe, escondido no meio de tudo aquilo que normalmente procuramos quando vamos a um Zoo. Para mim, porém, aquele pequeno espaço foi uma das coisas mais incríveis que vi em toda a minha infância e talvez tenha sido também uma das mais importantes.

O Carlos tinha quatro anos e ainda não sabia nada sobre a vida, sobre a morte ou sobre o amor que podemos sentir por um animal, mas aquele lugar ensinou-lhe uma coisa que nunca mais esqueceu: quando amamos verdadeiramente alguém, a sua história não termina no dia em que morre. Continua nas nossas memórias, nas nossas fotografias, nas histórias que contamos e no espaço que guardamos dentro de nós para nunca o deixar desaparecer.

Talvez seja por isso que, sempre que penso naquele lugar, não penso apenas nos animais que ali estão enterrados. Penso naquelas pessoas que um dia tiveram de se despedir deles e que, apesar da dor, decidiram deixar ali uma pequena prova de que aquelas vidas tinham importado.

E talvez seja isso que mais me emociona.Eu tinha quatro anos quando descobri aquele lugar e hoje, tantos anos depois, continuo a lembrar-me do caminho... bem lá em cima, depois do urso, com as árvores a decorar as campinhas que guardam o coração de muitas famílias...

Continuo sem saber explicar o que sinto mas sei que eu era uma criança que descobriu aquele cemitério naquele dia e, sem saber, tivesse encontrado uma parte do caminho que haveria de seguir durante toda a sua vida.

Não gosto de jardins zoológicos mas neste existe um cantinho que continua ali e ao mesmo tempo vive no meu coração.

Existem lugares que visitamos mas existem lugares que, de alguma forma, passam a viver dentro de nós. Para mim, aquele é um deles. ❤️🐾

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