26/07/2026
O TRATADO GASTRONÓMICO DAS ALDEIAS DO XISTO DAS BEIRAS
O fresco anfiteatro do Jardim da Devesa, em Pedrógão Grande, acolheu, no dia 25 de Julho de 2026, o lançamento do livro “Tratado Gastronómico das Aldeias do Xisto das Beiras”, da autoria de Luís M. Cunha. Produzido pela Hora de ler, de Leiria, tem 166 páginas em selecção de cor.
Na mesa estiveram, para além do autor e do editor, antropólogo Arnaldo Vasques, que fez a apresentação da obra, o Presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, João Gomes Marques, e o seus colaboradores, Luís Filipe Correia (Vice-presidente) e Ana Soraia Gomes (Vereadora da Cultura). No final da sessão interveio o Grupo de Cavaquinhos do Academia Sénior Vida por Vida, de Pedrógão Grande, que deu um belo concerto.
Depois das intervenções de Luís Filipe Correia e Ana Soraia Gomes, que saudaram o aparecimento desta obra e manifestaram a intenção de, com base nela, diligenciarem a classificação da gastronomia das Aldeias do Xisto como património imaterial de Portugal, interveio o editor, que se regozijou com tal intenção, e, depois, o antropólogo Arnaldo Vasques, a quem se deve o prefácio. Nele se escreve, nomeadamente:
O projecto das “Aldeias do Xisto” levou a um outro olhar a quatro unidades territoriais: Serra da Lousã, Serra do Açor, Zêzere e Tejo-Ocreza, onde aldeias dispersas vestem as montanhas e acompanham os cursos de água. Nesta obra de fôlego, trabalho árduo que nos oferece o Historiador Luís Cunha, viajamos pela gastronomia de um total de 23 lugares repartidos por 12 concelhos. E, se estas paragens têm a virtude do encanto da paisagem, logo imaginamos casinhas singelas, chaminés a esfumarem, famílias acocoradas ao calor do lume, águas límpidas nos regatos e a despenharem-se do alto dos fraguedos, regando os vales de praias de água doce. Tal metáfora romanesca esconde, contudo, um processo de vida difícil, desejos de farturas impossíveis, que se arrastaram por demorados séculos, levando os serranos e os vizinhos das demais leiras das encostas a baixarem os braços. O coberto vegetal da montanha, recortada por socalcos diminutos, só permitiam escassas sementeiras e mesmo a horta e o lameiro, mantidos com suor, aninhados à volta das aldeias, foram processos que se perderam no tempo. Trabalho ciclópico, indispensável sustento à permanência humana, não permitiram grandes sonhos naqueles montes e vales. Para lá da subsistência, o arrastar das vidas, que não vislumbravam amanhãs de esperança, levaram ao despovoamento, ao abandono, à solidão e à ruína do casario daqueles lugares. Daí, abalaram aos poucos e fizeram-se à vida, o “fado” migratório português. Coito de cobras e lagartos ficaram as silvas, que cresceram, deixando adivinhar pedaços de muros a circundarem paredes outrora casas de família.
Reconhece-se no trabalho do Dr. Luís Cunha uma interdisciplinaridade latente através das Ciências Sociais: Economia, História e Antropologia dialogam entre si. Assim, viajando da cozinha à culinária, entramos no ramo da Gastronomia, cuja importância se reconhece na expressa cadeia de valores do património local.
Luís M. Cunha, por sua vez, explicou o processo de recolha deste património e agradeceu o apoio da autarquia e a presença do público, que ascendeu a cerca de uma centena de pessoas.
O Presidente da Câmara encerrou a sessão, congratulando-se com a produção de uma obra que faz jus ao património gastronómico da região. (Fotos C.B.M.)