27/02/2026
Finalmente chegou-nos o livro de Erskine Caldwell que trabalhámos durante estes últimos meses, "Flores Bravias e Outras Histórias". Gosto muito do autor e há muito que o queria publicar mas sobretudo acho que estamos numa época em que, 100 anos depois, Caldwell volta a fazer sentido, tanto nos EUA como aqui, em todos os locais onde a intolerância pode fazer parte da uma suposta normalidade, como nos cenários destes contos.
Flores Bravias e Outras Histórias
Erskine Caldwell
Edições da Snob
284pp
Tradução de José Luís Almeida
Paginação e capa de Pedro Simões
Erskine Caldwell (EUA 1903 - 1987) é considerado um dos grandes escritores americanos.
Este livro traz-nos 30 contos, seleccionados e traduzidos por José Luís Almeida, escritos entre 1930 e 1941. Hoje, quase cem anos depois, permanecem actuais. Numa época em que a intolerância parece espalhar-se como uma epidemia precisamos de ler e pensar na denúncia que Caldwell aqui faz mostrando o que de mais negro o humano é capaz.
Caldwell é o escritor da parte mais negra da América do Norte. Começa a escrever em 1929, ano do crash da bolsa de NY, acontecimento que lança o país numa miséria profunda. Os homens e mulheres do interior do país são abandonados à sua sorte. O interior dos Estados Unidos f**a sem nada. Não há comida, há muita especulação, o clima é pouco propício às plantações. É esse país que Caldwell encontra e descreve. O país que está nos antípodas do Sonho Americano. O país dos vencidos, dos doentes, um país onde a humanidade é posta à prova e onde surgem as figuras mais estranhas e obscuras. Caldwell foi um activista pelos direitos das minorias, criou personagens femininas independentes, fortes e lutadoras ao mesmo tempo que denunciou os maus tratos a pessoas racializadas, tratadas como se ainda estivessemos em plena época da escravatura.
Não há empatia com as personagens de Caldwell. Elas não nos são simpáticas, épicas, grandiosas. Nada em Caldwell o é verdadeiramente. Aqui não há heróis no clássico sentido da palavra. Há sobreviventes. Há pessoas sem estereótipo que sobrevivem a uma América ra***ta, exploradora e preconceituosa.