20/08/2026
Liberdade Apunhalada
Pertenci às eras mais distantes,
ao odor da terra acabada de fecundar,
ao pão acabado de amassar.
Pertenci aos belos roseirais,
aos longínquos pomares do meu avô,
em Proença,
e às feiras na Sobreira Formosa.
Aos cafés bebidos com divinal prazer
no "Martinho d’Arcada"
e ao elixir dos poemas na "Brasileira",
deambulando por um "Rio de Prata".
Pertenci aos imensos,
intensos pinheirais das Moitas.
E tudo aquilo era eu,
tudo aquilo era meu!
Cantarolava descalça por todos os caminhos,
esquecida do asfalto
da cidade tão pequenina.
A inconformada “pequena”
pertencia aos segredos da terra lavrada,
ao sémen que ainda não sabia,
mas adivinhava.
Pertencia às origens e à dureza
que, por direito, já lhe pertenciam:
à essência.
Pertenci, rendida,
a retalhos de gerações:
à de oitenta,
a minha,
e à geração da Liberdade,
por herança de amor.
Pertenci às eras mais distantes.
Sou filha das alvoradas,
submersa em ancestrais vozes,
mais que sangue:
seiva,
ousadia!
Pertenci ao sabor das azedas na boca
enquanto as trincava, sorridente,
a cantarolar na eira,
e ao odor da terra acabadinha de fecundar
pelo arado,
qual ventre de jeira exposto
à minha pequenita mão,
ao sol, ao vento
e à dura, porém doce,
mão do meu avô.
Pertenci às candeias de azeite
e agora à soberana tecnologia,
à cúmplice revoada nas asas de uma águia-real,
aos fados e seus trinados,
à natureza mãe em ebulição
que senti crescer em meus seios
de menina.
Ninguém me exilou.
Eu mesma o fiz!
Moribundos,
padecem os cravos
nos canteiros de minha Mãe.
Hoje pertenço à terra
que já não tem odor,
ao povo
que já não tem fulgor,
às mães
que já não têm a alegria
que a minha teve
quando me ouvia cantar.
Talvez já não haja nada para lutar.
Talvez já esteja tudo rendido.
Quem sabe tudo findo?!
Hoje vivo liberta, por aí,
em qualquer canto da cidade,
alheia, anónima, desperta,
porém enclausurada
noutro deserto,
sem quaisquer flores silvestres,
num tempo em que
vozes de denúncia
se levantam
entre os próprios camaradas.
E vou-me questionando
onde foi parar
a liberdade que me deram por herança,
aquela que chegou à minha infância,
à qual me dei por inteira,
cabelos de Abril
ao vento.
Hoje pertenço ao mundo
e o mundo sabe-me a nada!
Sou poeta das palavras já ditas,
sou peregrina nesta terra
que, dantes, sonhando,
eu dizia ser minha.
Lanço farpas,
como quem vê partir um filho,
e sofro em silêncio,
a dor de ter sido ousada,
de ter crido,
e de sentir uma promessa
envelhecer sorrindo,
perante os olhos da criança
que em mim habita.
E, tal como erva daninha,
subitamente sou cortada.
Mas cuidado, ó agricultor,
como me cortas!
Se não me arrancares
a raiz da alma,
hei-de sempre regressar,
parida por qualquer rasgo de madrugada,
com a terra ainda agarrada às mãos
e Abril a florir-me no sangue.
Célia Moura, poesia inédita, 19.08.2026
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