Célia Moura poesia

Célia Moura poesia Página de Poesia, Pensamentos e Prosa Poética.
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12/09/2026

Vou embalando
meus pássaros feridos,
sussurrando-lhes Vida
enamorando-me de
suas cicatrizes,
contorcendo-me em
suas agonias,
réstias de outrora
onde vou “perdendo o norte”
de mim.

Vou-me procrastinando,
nesta inquietação embriagada
dos dias,
como quem ousa
mordiscar o tempo.

Como se de mim pudessem
nascer as águas, os rios,
a paz,
e os sorrisos límpidos, lindos
imensos, inocentes
de todas as crianças mortas,
expostas à insanidade da besta
perante a esquizofrenia global
de um mundo vão.

Rasgo-me até ao âmago
enquanto bebo o êxtase
ao quebrantamento
das flores
que já não sei,
nem contemplo.

Primícias entre os seios,
ventre mutilado de caxemira
na berma do devaneio
enquanto vais tecendo
murmúrios e grinaldas
em meus cabelos revolvidos
de norte.

Que direi, meu amor,
que poderei eu dizer?!

Venho da inquietação dos frutos
e na forja de Deus
continuo embalando feridos,
os pássaros
enquanto das mãos
se derrama incessantemente,
o silêncio
como se me doessem até à loucura,
todas as ausências
e esta procrastinação constante de mim
onde me permito morrer um pouco mais
a cada instante
e me sorriem felizes,
os pássaros.

Célia Moura, a publicar "Onde o Silêncio Se Demora"

Imagem/vídeo - "pinterest"

Desço pelas virilhas que já ousei mordere à evocação dos corpos bailandona eira.Teu prazer será sempre meu regressoembri...
08/09/2026

Desço pelas virilhas que já ousei morder
e à evocação dos corpos bailando
na eira.

Teu prazer será sempre meu regresso
embriaguez que me aquieta
tua boca, essa fonte onde se incendeiam girassóis
e ninhos de andorinhas.

Sabes-me a trigo e mel no alpendre das manhãs.

© Célia Moura, in “No Hálito De Afrodite”
Imagem - pinterest photography

Que eu seja para sempre tua,Fazendo e desfazendoIndo e vindo como as marés!Que sejas tu meu coloDe mariposa loucaOnde po...
05/09/2026

Que eu seja para sempre tua,
Fazendo e desfazendo
Indo e vindo como as marés!

Que sejas tu meu colo
De mariposa louca
Onde possa arder esta lava
Que me consome alvoradas
E toda a nossa casa uma fogueira
Dessa paixão onde ouso morder
Tua boca
Em vez da poesia.

Seja eu tua mulher e tua menina,
Teu demónio e tua estrela cadente
Rebolando-me em teu corpo peregrino!

Seja eu mais que uma amante,
Amiga
Cumplicidade nas asas do condor.

E quando eu, candelabro em estilhaços
Entoar minha lúcida loucura,
Que venhas e me faças sorrir
Uma e outra vez
Rodopiando Amor pelo chão do soalho
Pendurando-me flores nos cabelos
Até me despertares,
Porque eu sou a maré que ansiamos
E o tempo é a cópula
De nos possuirmos
Sem passado ou futuro.

© Célia Moura, in “No Hálito de Afrodite”

Imagem - "pinterest" photography

OrigemCubram-me somenteO corpo já inerteDe pétalas vermelhasE frescas açucenas brancas.Recitem-me um poemaEm gemidos de ...
02/09/2026

Origem

Cubram-me somente
O corpo já inerte
De pétalas vermelhas
E frescas açucenas brancas.

Recitem-me um poema
Em gemidos de piano.
Serenem meu sono breve
Com um fado de ilusão.

Queimem incenso,
Sem quaisquer prantos.
Plantem velas acesas pelos cantos!
Inundem-me de Amor!

Sorriam-me subtilmente.
Não serei ausente.

Derramem hinos de luz e de vento.
Retalhos de palavras retidas e rendidas
Nos escombros deste tempo.

Fazei dessa partida
Uma inspiração à Origem
Como um embrionário regresso
Ao ventre da Terra Mãe,
Meu útero de silêncio.

Cubram-me apenas
O corpo ainda presente
De rosas vermelhas
E castas açucenas.

© Célia Moura, in “Vestida De Silêncio”, - Universitária Editora - 2000
Imagem - apenas eu com retoques da IA

Aguardo-te amada minhaenquanto possuir a bênção de Osíris entre a púbis e o umbigo.Esta herança pobre de ninguémque even...
01/09/2026

Aguardo-te amada minha
enquanto possuir a bênção de Osíris entre a púbis e o umbigo.

Esta herança pobre de ninguém
que eventualmente irá perpetuar toda a dor,
as cerejas e o licor,
num local onde nunca me dei,
perfídia minha,
esta alma infinitamente sozinha.

Doem-me todas as vozes que ouço e os silêncios mais ainda!

Se escrevo é por esta tristeza de ser.
Se existo e escrevo, apelo unicamente à salvação de mim.

Mas tudo o que sinto é cansaço
maior ainda que todos os fardos,
angústias ou paixões longínquas.
Tudo o que possa escrever é maçã assada no forno
ou mais uma taça de espumante refasteladamente bebida por qualquer um!

Tudo tão repetido até à exaustão
e eu irremediavelmente perdida,
desmemoriada como um abacate sem caroço
ou água de coco em lata de supermercado.

Se ainda canto é tentativa de libertação dessa louca que tomou posse do meu cérebro revestido a jasmim
enquanto te vejo chegar suave,
e de um só gole me bebes a alma pela raiz.
Eis-me liberta!
Finalmente liberta de toda a miserável matéria e deste corpo.

Olho para baixo e contemplo a alegria da planície prenhe
de verde e papoilas.

Uma criança gargalha no seu baloiço,
rebola com um pequeno rafeiro preto,
mancha branca no peito
naquele local mágico
onde tudo não passa de um ciclo demasiado perfeito.
A liberdade é um hino que rodopia em meus cabelos.

Estremeço só de olhar o mundo.

Célia Moura, poesia inédita
(bom dia gente linda) 🫶
Imagem - "Goggle" photography (desconhecida a sua autoria)

Como se sempre te tivesse pertencidoassim entraste com fôlego e loucurapelo meu corpo.Derrubaste tudo à tua passageme eu...
30/08/2026

Como se sempre te tivesse pertencido
assim entraste com fôlego e loucura
pelo meu corpo.

Derrubaste tudo à tua passagem
e eu que, já não te esperava
desarrumei minha alma
e em teus braços fortes de tornado
me doei furacão.

Por instantes, horas, dias
fomos essência renegada
por décadas.
Sim, fomos amor na girândola do tempo,
e agora?!

Agora pertencemo-nos
que nos importa o que dizem
os outros!
Eles nem sequer existem!

Enquanto nós sim,
fazemos amor na terra acabada
de fecundar
e como duas crianças
famintas de beijos
nos rebolamos nela,
gargalhamos mar
e utopia,
em seu ventre
sem cessar.

Célia Moura, poesia inédita
(bom dia)
Ilustração - "Pinterest" photography

Chovem cântaros de saudademeu irmãoneste pranto desesperado de linhofluindo entre minhas pernas.Sempre que anoitece no t...
27/08/2026

Chovem cântaros de saudade
meu irmão
neste pranto desesperado de linho
fluindo entre minhas pernas.

Sempre que anoitece no teu rosto
clamo a devassidão às açucenas
beijando os olhos
aos mendigos,
essa miserável fome deambulando sórdida pelo chão de pedra,
o mesmo onde as crianças brincando,
vão morrendo devagar
e se acendem velas.
Este chão que nos ensinou
a gatinhar
na dignidade de não sabermos roubar.

Sempre que anoitece no teu rosto
meu irmão
chovem cântaros de saudade
e em nós amanhecem fragas.

Célia Moura, a editar "Onde o Silêncio Se Demora"

Ilustração - Pinterest photography

Virás no cio das ferasAcariciar-me a exaustão derramadaPelas colinas já saciadas em volúpia.Estarei provavelmente debruç...
24/08/2026

Virás no cio das feras
Acariciar-me a exaustão derramada
Pelas colinas já saciadas em volúpia.

Estarei provavelmente debruçada no silêncio
E feliz se do céu cairem as primeiras chuvas
Mensageiras de vida.

Dos meus seios
Se enamorarão ventos
Quimeras
Esperas.

Ah! Quem disse que era amor
Não sabia, não sentiu…

Foram mares!

© Célia Moura poesia
(boa semana)
© Patrick Odorizzi Photography

Embriaga-me no frenesimdo teu corpoe não me deixes regressarao porto de abrigoainda que gritemventos de leste ou de nord...
22/08/2026

Embriaga-me no frenesim
do teu corpo
e não me deixes regressar
ao porto de abrigo
ainda que gritem
ventos de leste ou de nordeste.

Sou águia mutilada.

Deixa que sussurrem
entre as veredas,
pequenas rosas brancas
mum sorriso de Primavera,
silêncios
entre nossas longínquas mãos
de esperança
e as crianças que guardámos
no ventre de nós,
permaneçam naquele balão vermelho
que deixei fugir pela janela da cozinha
num dos primeiros prantos,
no quintal dos meus afectos.

Embriaga-me de lua cheia,
êxtase ti,
exila-me no perfume dos cravos
essência que nos pariu.

Só não me deixes regressar!

Célia Moura
(bom dia)
Ilustração – Pinterest photography

Liberdade ApunhaladaPertenci às eras mais distantes,ao odor da terra acabada de fecundar,ao pão acabado de amassar.Perte...
20/08/2026

Liberdade Apunhalada

Pertenci às eras mais distantes,
ao odor da terra acabada de fecundar,
ao pão acabado de amassar.

Pertenci aos belos roseirais,
aos longínquos pomares do meu avô,
em Proença,
e às feiras na Sobreira Formosa.
Aos cafés bebidos com divinal prazer
no "Martinho d’Arcada"
e ao elixir dos poemas na "Brasileira",
deambulando por um "Rio de Prata".

Pertenci aos imensos,
intensos pinheirais das Moitas.

E tudo aquilo era eu,
tudo aquilo era meu!

Cantarolava descalça por todos os caminhos,
esquecida do asfalto
da cidade tão pequenina.

A inconformada “pequena”
pertencia aos segredos da terra lavrada,
ao sémen que ainda não sabia,
mas adivinhava.

Pertencia às origens e à dureza
que, por direito, já lhe pertenciam:
à essência.

Pertenci, rendida,
a retalhos de gerações:
à de oitenta,
a minha,
e à geração da Liberdade,
por herança de amor.

Pertenci às eras mais distantes.
Sou filha das alvoradas,
submersa em ancestrais vozes,
mais que sangue:
seiva,
ousadia!

Pertenci ao sabor das azedas na boca
enquanto as trincava, sorridente,
a cantarolar na eira,
e ao odor da terra acabadinha de fecundar
pelo arado,
qual ventre de jeira exposto
à minha pequenita mão,
ao sol, ao vento
e à dura, porém doce,
mão do meu avô.

Pertenci às candeias de azeite
e agora à soberana tecnologia,
à cúmplice revoada nas asas de uma águia-real,
aos fados e seus trinados,
à natureza mãe em ebulição
que senti crescer em meus seios
de menina.

Ninguém me exilou.
Eu mesma o fiz!

Moribundos,
padecem os cravos
nos canteiros de minha Mãe.

Hoje pertenço à terra
que já não tem odor,
ao povo
que já não tem fulgor,
às mães
que já não têm a alegria
que a minha teve
quando me ouvia cantar.

Talvez já não haja nada para lutar.
Talvez já esteja tudo rendido.
Quem sabe tudo findo?!

Hoje vivo liberta, por aí,
em qualquer canto da cidade,
alheia, anónima, desperta,
porém enclausurada
noutro deserto,
sem quaisquer flores silvestres,
num tempo em que
vozes de denúncia
se levantam
entre os próprios camaradas.

E vou-me questionando
onde foi parar
a liberdade que me deram por herança,
aquela que chegou à minha infância,
à qual me dei por inteira,
cabelos de Abril
ao vento.

Hoje pertenço ao mundo
e o mundo sabe-me a nada!

Sou poeta das palavras já ditas,
sou peregrina nesta terra
que, dantes, sonhando,
eu dizia ser minha.

Lanço farpas,
como quem vê partir um filho,
e sofro em silêncio,
a dor de ter sido ousada,
de ter crido,
e de sentir uma promessa
envelhecer sorrindo,
perante os olhos da criança
que em mim habita.

E, tal como erva daninha,
subitamente sou cortada.

Mas cuidado, ó agricultor,
como me cortas!

Se não me arrancares
a raiz da alma,
hei-de sempre regressar,
parida por qualquer rasgo de madrugada,
com a terra ainda agarrada às mãos
e Abril a florir-me no sangue.

Célia Moura, poesia inédita, 19.08.2026
Imagem - Pinterest photography

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