25/08/2026
Gustavo Santos,
Li as tuas declarações sobre o cancro, sobre a quimioterapia e sobre aquilo que, na tua opinião, pode levar uma pessoa a desenvolver esta doença.
E desta vez não consegui f**ar calada.
Não te escrevo como médica. Não te escrevo como cientista. Não te escrevo sequer como alguém que pretende ter respostas para uma doença que continua a assustar milhões de pessoas.
Escrevo-te como filha.
A minha mãe teve dois cancros do pulmão.
Dois.
E continua viva.
E sabes uma coisa que talvez te surpreenda?
A minha mãe é pessimista. A pior que conheço!
Não passou os tratamentos a repetir frases positivas diante do espelho. Não acreditou que bastava mudar os pensamentos para mudar as células. Não acordou todos os dias convencida de que a força da mente iria resolver aquilo que o corpo estava a enfrentar.
Teve medo.
Teve dias maus.
Teve pensamentos negros.
Teve momentos em que provavelmente preferia estar em qualquer outro lugar do mundo que não numa sala de hospital.
E fez quimioterapia.
Foi a quimioterapia que a salvou.
Não uma suposta vibração positiva.
Não a ausência de pensamentos negativos.
Não uma fórmula espiritual.
Não uma alimentação cuidada (a minha mãe vive de iogurtes)
Não uma promessa de que, se acreditasse suficientemente, o cancro desapareceria.
Foi tratamento médico.
Foi ciência.
Foram médicos, enfermeiros, exames, medicamentos, efeitos secundários, sofrimento e uma enorme vontade de continuar viva.
Por isso, quando ouço alguém sugerir que uma doença como o cancro pode estar relacionada com a forma como uma pessoa pensa, ou que a quimioterapia pode ser vista quase como uma escolha menor perante alternativas baseadas na mente ou na atitude, confesso que me revolta...
Porque há uma diferença enorme entre dizer a alguém “não percas a esperança” e dizer-lhe, ainda que indiretamente, que a doença pode ser consequência daquilo que ela pensa ou sente.
A primeira frase pode dar força.
A segunda pode transformar uma doença numa culpa.
E um doente de cancro já tem medo suficiente sem precisar de carregar também a culpa de não ter sido suficientemente positivo.
A minha mãe não ficou viva porque teve os pensamentos certos.
Ficou viva apesar de ter medo.
Apesar de ser pessimista.
Apesar de haver dias em que provavelmente não acreditava em nada.
Ficou viva porque teve acesso a tratamento.
E porque esse tratamento funcionou.
É perfeitamente legítimo falar de esperança, de saúde mental, de coragem, de qualidade de vida e da importância de uma pessoa se sentir acompanhada durante uma doença.
Mas isso não nos dá o direito de misturar essas coisas com afirmações que podem levar alguém desesperado a desconfiar da medicina ou a acreditar que o tratamento científico é dispensável.
Há palavras que são bonitas quando ditas num palco ou no sofá.
Mas podem tornar-se perigosíssimas quando chegam aos ouvidos de alguém que acabou de ouvir: “Tem cancro.”
Nessa altura, essa pessoa não precisa de um guru que lhe explique que talvez tenha adoecido porque pensou mal.
Precisa de médicos.
Precisa de informação séria.
Precisa de tratamento.
Precisa de apoio.
E precisa, sobretudo, de não ser culpabilizada pela própria doença.
A minha mãe teve dois cancros.
Continua aqui.
E eu agradeço todos os dias à medicina por isso.
Por isso, Gustavo, podes acreditar no poder da mente, na espiritualidade, na energia, no pensamento positivo ou no que quiseres.
É um direito teu.
Mas quando falamos de cancro, convém não confundir crença pessoal com evidência científ**a.
Porque há pessoas que não estão a ouvir uma palestra.
Estão a lutar pela vida.
E quando alguém está a lutar pela vida, as palavras também podem matar.
E, felizmente, no caso da minha mãe, a quimioterapia fez precisamente o contrário.
Salvou-a...
PS - atenção: eu também acredito que uma atitude positiva ajude na cura de várias doenças, mas se fosse assim tão simples, não tínhamos crianças em camas de hospital...