23/11/2025
Diálogo entre mim e a Laura: A melancolia das músicas antigas vs. a vibe da nova música
Eu: Hoje numa mood nostálgica, a apreciar músicas antigas.
Laura: Na sala, a estudar enquanto ouve música moderna, pragmática, com ritmos acelerados e letras alucinantes!
Eu, a suspirar: Esta música... Toca a alma... Linda!
Laura: (Revira os olhos e coloca a mão no botão da tv) Mãe, pelo amor de Deus! Desliga isso. Parece que o cantor acabou de perder o emprego, a casa e o cão, tudo ao mesmo tempo...
Eu: Não estragues a magia, Laura! É uma canção sobre a dor de uma perda, mas olha para a melodia, a poesia da letra...
Laura: Poesia? Mãe, é só deprimente! Honestamente, porque é que as músicas da vossa época eram todas tão... tristes? Anos 70, 80, 90... Era só gente a lamentar-se em slow motion! Que horror!!!
Eu: Não é tristeza, é profundidade. É um sentimento complexo que te faz sentir que não estás sozinha na tua dor. (eu, com ar lamechas, mas sério) A música antiga explorava as emoções, as relações que não funcionavam. Era arte a destilar a melancolia da vida.
Laura: (de braços cruzados) Melancolia? Eu chamo-lhe falta de vitamina D. Hoje em dia, a música é para dar a volta, mommy! Quando ouço um bom Rap ou Kizomba, a música tem vibe, tem ritmo, dá-me energia para sair e fazer coisas! Percebes a diferença?
Eu: O vosso rap e a vossa música moderna parece que têm medo de f**ar tristes. É tudo: "Sou o melhor", "Ganhei muito dinheiro", "Vamos dançar". Não há espaço para a vulnerabilidade...
Laura: Claro que há! Mas é diferente. Se estou triste, quero música que me lembre que consigo superar, dahhh! O Rap é sobre a luta e a vitória; é empoderamento. O Kizomba é sobre conexão e alegria. É música para sentir a vida, não para chorar no canto.
Eu: E a intensidade, Laura!? As baladas da minha altura tinham um crescer que era... uau! Vocês metem uma batida forte, um drop, e pensam que é o mesmo. A diferença é entre o vinho tinto e o energético. Ambos fazem efeito, mas um tem corpo, o outro tem cafeína.
Laura: (a rir e a gozar-me) OK, o vinho tinto de facto tem mais corpo, mas o energético faz-me dançar! Eu não quero introspeção às 11 da manhã... Quando oiço as vossas músicas, sinto-me a afundar no sofá. É como se a música dissesse: "Desiste, o amor não vale a pena."
Eu: Não, a música diz: "O amor dói, mas vale a pena sentir tudo." Mas pronto, já percebi amor, tu queres a alegria, eu quero a alma. 'Bora lá, põe lá a tua lista de reprodução.
Laura: (Muda a cena toda na sala e a música moderna começa a tocar com uma batida forte). Vês? Isto é terapia!
Eu: Pedro Sampaio?? A sério Laura??! É divertida mas não diz nada de jeito! Vou tentar encontrar a poesia nos vossos drops.
Laura: Isso, mãe! E eu prometo tentar encontrar o lado "lindo" na vossa miséria sinfónica. É um acordo!
Não desisti e pus Cher, Celine Dion e outras!
Eu: Meu Deus, que power! Isto é o auge da emoção humana, é brutal!
Laura: (Com uma cara de quem cheirou algo azedo) Mãe, está a sair um funeral desses altifalantes. Que tristeza é esta?! Parece que estão a fazer um ultimato ao aquecimento global.
Eu: Não sejas parva Laura!!! É uma obra-prima sobre o desgosto amoroso! Eles eram corajosos! Eles assumiam que estavam a sofrer!
Laura: Assumiam? Parece que estavam a competir para ver quem f**ava mais clinicamente deprimido! As vossas canções dos anos 80 e 90 podiam ter sido usadas como trilha sonora para as obras completas de emoções destruídas. Se eu quisesse ouvir alguém a chorar, ligava à ................(não interessa!)
Eu: (com vontade de dar uma gargalhada) Não exageres! É o toque dramático! Onde é que estão os solos de guitarra de três minutos na vossa música? Onde é que está o momento de parar tudo, levantar o isqueiro e chorar por alguém que nem conheces?
Laura: Isso é porque nós já ultrapassámos a fase do "isqueiro e chorar"! Se estou triste, meto um Trap que fala sobre andar para a frente. Música moderna é tipo um shot de adrenalina: "Segue em frente, miúda!" A vossa é um copo de whisky amargo e uma carta de suicídio poética.
Eu: Ai sim? Sabes muito sobre Whisky... Mas já agora, o whisky tem classe! O Trap é só barulho de fritadeira e a mesma letra sobre o luxo que ninguém tem.
Laura: Pelo menos o Trap tem ritmo! Ninguém dança o choro do Phil Collins, mãe! O que é que fazes quando ouves isto? Abanas a cabeça e escreves um poema sobre a chuva?
Eu: Faço uma introspeção profunda sobre as minhas decisões de vida enquanto a bateria entra... É diferente...
Laura: (Suspirou, teatralmente) Pronto, o meu cérebro de 20 anos não aguenta tanta "introspeção". Por favor, dá-me o comando da TV. Preciso de ouvir alguém a dizer que está too sexy para isto, antes que eu comece a perguntar a mim mesma: "Será que o meu casaco de ganga devia ter ombreiras?"
Eu: Vai lá, põe o teu Rap. Mas que fique registado, a vossa música é o equivalente musical a um emoji de sorriso: superficial e demasiado brilhante. A minha é a poesia gótica.
Laura: Perfeito! E a tua poesia gótica é o motivo pelo qual precisamos de medir os níveis de depressão nas empresas. Vai vender o que vendes e deixa-me curtir isto e , já agora sente a vibe da felicidade! nNão há tempo para a tristeza nos tempos modernos! (Pisca-me o olho) Temos de ser produtivos! Byeeeeeeee, love you, fecha a porta da sala e deixa-me sossegada!
Eu: Hummm... Love you too...