20/12/2020
Todos já sabemos que o modelo tradicional de família heterossexual, monogâmica e nuclear tem sofrido transformações imensas nas últimas décadas. Já no século passado, o antropólogo Levi-Strauss dizia que a família não poderia ser considerada uma estrutura fixa (pai, mãe, filhos) e que ela iria além dos laços consanguíneos.
Hoje há famílias formadas por uma mãe solteira ou separada e seus filhos, casais homoafetivos e suas crianças, um casal sem filhos também é uma família. Mas e quando o casal resolve adotar um filhote de qualquer espécie, podemos considerar isto como uma família também? Uma família poderia então ser formada por seres de diferentes espécies?
Para o psicólogo Itamario Fernandes. tratar os animais por termos como ‘filho’ ou ‘filha’ não parece ser algo saudável, por demonstrar-se ali uma fuga da realidade. Ele reconhece, entretanto, que encontramos nestes animais o afeto de que tanto precisamos. Ainda para ele, nos casos onde temos um casal do mesmo s**o a cuidar de um animal como se fosse filho, este casal seria ‘a família’, mas o animal não faria parte dela. Já o psicanalista Marcelo Pombo vê de uma outra forma ao ressaltar que todos somos animais e lembra que o termo ‘animal’ vem de ‘ânimo’, ou seja, ‘vida’. Também afirma que “um núcleo familiar é formado por entes que se amam e se cuidam... chamemos isso de matilha ou de família multiespécie - se isso é fantasiar, é uma fantasia que não faz mal a ninguém”.
Bem, para os casais a seguir, esta discussão técnica do que pode ser família pouco importa: os pequenos (às vezes não tão pequenos assim) são parte real e importante do que eles chamam de família. Recebem não apenas amor, e cuidados mas até mesmo festas de aniversário e presentes de Natal. Podemos discordar de algumas coisas e de suas atitudes, mas não poderemos negar, de forma alguma, que não haja muito amor envolvido. ..............................
Thiago e Marcelo adotaram Panqueca há três anos. O casal nos conta que Panqueca é a alegria da casa, capaz de criar momentos de alegria e compreender o que signif**a tristeza. Marcelo nos contou que no dia da morte da sua mãe, Panqueca sentou ao seu lado e o lambeu por horas - em algum lugar do seu coração Panqueca percebeu que Marcelo precisava ser cuidado e ele estava ali para isso. Thiago e Marcelo pensam em adotar uma criança, Panqueca não teria entrado na vida deles para substituir este desejo. ..............................
Elizabeth e Giselle adotaram a gatinha Teresa Cristina há um ano. Elas moram juntas em Portugal e afirmam que Teresa Cristina é como uma criança esperta: sabe perceber a personalidade de cada uma das mães e se relaciona com cada uma delas diferentemente. Como a Elisabeth é mais reservada, é para ela que ela vai quando quer carinho e aconchego. Giselle, por ser mais extrovertida, é procurada para bagunça. Teresa Cristina também não veio substituir o desejo das meninas por terem filhos humanos.
Teresa Cristina participa de todas as atividades da família, até na montagem da árvore de Natal. Mesmo sem querer, a gatinha é também provedora de comida para a família: a dona de um restaurante japonês que f**a na frente da casa delas reconheceu a gatinha das redes sociais (sim, a gatinha tem uma página no Instagram) e ofereceu às três um jantar super especial!..............................
Leo já tinha a Yorkshire Sofia quando Thomas entrou para a família. Inicialmente a família era formada por Leo, sua mãe e a Sofia. Após o falecimento da mãe de Leo, Thomas se juntou a eles. Sofia é um ‘ser humaninho’ encantador e foi muito fácil que os três se tornassem mais uma família improvável.
Leo e Sofia ainda sentem a ausência da mãe de Leo e parece que Sofia entende exatamente quando são estes momentos. Ele diz que nestes momentos de tristeza, ela apenas se aproxima, lambe-o, deita junto e dorme ao seu lado.
Depois de longas discussões, o casal chegou a conclusão que vão adotar uma criança. O objetivo da família é futuramente viver em uma fazenda, rodeados de filhos e animais - ‘estilo Rita Lee’, em suas palavras. ..............................
Jhunior, Emerson e Billy estão junto há dois anos. O casal Jhunior e Emerson já estavam juntos há outros dois anos quando perderam Spaik. Billy ajudou a amenizar a dor. Para Jhunior, Spaik e agora o Billy o ajudaram a entender o que signif**a ser pai: ensinar, dar bronca, brincar, lidar com o constante medo de perder e cuidar dos pequenos nos momentos de doença - Billy tem crises epiléticas. Eles dizem sonhar com aquela foto de família, onde o casal esteja rodeado por seus filhos humanos e Billy.
Billy nasceu no dia 25 de dezembro e está com o casal em todos os lugares, todos os momentos. Natal sem Billy não seria Natal, afinal é aniversário de Jesus mas do Billy também. ..............................
Airton e Victor consideram realmente o Omar como filho. Como os demais casais, eles também pensam em ter um filho humano, mas que jamais tomará o espaço que o Omar possui. Eles contam que o início da adaptação de Omar com eles não foi dos mais fáceis - Omar levou um tempo para perceber que estava seguro nesta nova família. Hoje, é o centro da casa, senta à mesa com seus pais e... não haverá Natal sem Omar. ..............................
Luiz e Leury tem dois pets-gêmeos: Nick e Capuccino. Estão juntos desde 2016. Foi através dos ‘meninos’ (como Leury os chama) que eles aprenderam o real signif**ado de ‘amor incondicional’. E este amor incondicional vem dos dois lados: da amor eterno dos meninos pelos pais e da superação da raiva e frustação quando Luiz e Leury descobrem móveis roídos, sofás destruídos e chinelos comidos.
Já se vão 5 Natais e sempre juntos. Se forem convidados para irem à casa de alguém, os meninos vão sempre junto. E para eles o que sempre mais chama a atenção é que recebem tanto deles, dando tão pouco de volta. “O que é água e ração em comparação a todo o amor que recebemos destes dois?”, Leury se questiona.