26/02/2026
De Macau a Lisboa, com amor.
No Jornal "O Regiões" surge o texto tão gentil do meu querido amigo Joaquim Correia que tão bem soube ler o livro "Cópia Falsa" editado por A Morte do Artista
https://oregioes.pt/copia-falsa-de-joao-eduardo-ferreira/
«Conheci o João Eduardo em Macau, através de uma amiga comum. Espreitámos os mistérios de Macau, gozámos os prazeres das Filipinas. Sempre atento e curioso, saboreava os lugares e interrogava-se sobre pormenores que tentávamos decifrar, preparados para os seus comentários acutilantes e pertinentes — sinceros, divertidos, por vezes ácidos, muitas vezes metafóricos.
A sua escrita é assim: as memórias somam-se, aparecem e desaparecem, confundem-se com descrições afiadas que desmontam lugares-comuns.
Foi um prazer explorar as ruas e vielas de Macau com alguém que nos ouve e quer saber mais.
A história do livro constrói-se da mesma forma: numa escrita clara e fluida, transmite pensamentos dispersos “como colinas e fracturas de Lisboa”, cidade onde a ação decorre. Acompanhamos Rui, que por vezes se confunde com o autor, agora sozinho depois de Helena ter partido, deixando uma carta difícil de abrir. Nas suas deambulações — “vagabundo ou descobridor de cidades?” — descobre que a carta contém um texto que ele próprio escrevera, relatando um erotismo talvez não consumado. Avanços e recuos na relação, como na vida.
A obra, editada pela Morte do Artista, divide-se em capítulos com títulos que funcionam como metadados da narrativa: uma palavra concentra conteúdo, depois indexado e resumido no final do livro. Mesmo a introdução, composta por fotografias onde Paulo Romão Brás interpreta as deambulações do autor, apresenta cenas lisboetas abstratas, desfocadas, como se algo se escondesse sob a primeira camada visual.
Quando visitou Macau, nos anos 90, escrevia sobre discos, livros e filmes em várias revistas. Lembro-me de longas conversas sobre música ao sol quente de Boracay, nas Filipinas. O seu primeiro livro publicado data do início do século XXI, Corpos Estranhos (I – na Quinta, II – na Biblioteca, III – na Lagoa), pela editora Apenas Livros.
A poesia em prosa de Cópia Falsa está salpicada de referências a filmes e livros — listados no final, assim entendidos como essenciais para a compreensão da história — mas também de sons e ruídos. Quem conhece as ruas de Lisboa reconhece essas imagens do quotidiano, reais ou imaginadas. A cópia é falsa porque é construída a partir das memórias do autor, é imperfeita porque não é verdadeira; são recordações sobrepostas que nos encantam pela paleta colorida de sensações. Só o Tejo permanece real, escapando à máquina fotocopiadora encerrada numa sala do cérebro do autor.
Confesso: foi o primeiro livro que li do amigo que conheci “num lugar entre o Ocidente e o Oriente”, como ele escreve na terna dedicatória que encontrei na página de rosto de Cópia Falsa que me enviou. Fiquei com muita vontade de conhecer mais a fundo a sua já extensa bibliografia.»
JOAQUIM CORREIA