15/09/2026
Ainda a propósito da meia maratona do Porto, ontem dei a minha opinião e perspetiva do lado do atleta. Hoje quero falar um pouco sobre as organizações, as boas, as más e as assim assim.
A organização de provas de estrada e trail tem vindo a evoluir, mas nem sempre para melhor.
Cada vez mais, participar numa prova de estrada ou trail é um investimento considerável. As inscrições estão caras, mas, em algumas organizações, parece faltar o essencial: preocupação com quem está a correr.
Abastecimentos fracos, percursos mal marcados, falta de voluntários pelo caminho e falta de apoio em situações de emergência são problemas que não deveriam acontecer.
Afinal, não pedimos luxo. Pedimos respeito, segurança e organização. É o mínimo que os atletas merecem pelo preço que pagam. No trail, onde estamos muitas vezes sozinhos no meio do monte, isto não é apenas uma questão de organização. É uma questão de segurança.
Porque por trás de cada dorsal está uma pessoa, um esforço e muitas horas de treino. O atleta merece respeito.
E depois há quem faça bem. Quem respeite o atleta. Quem marque os percursos como deve ser, garanta abastecimentos adequados e tenha equipas atentas. Quem disponibiliza um contacto de emergência e, quando precisamos dele, atende e aparece.
Não queremos mordomias. O dorsal pode ter um preço. A segurança de quem o veste não pode ter preço.
Li muitas criticas à prova de domingo: hora tardia para começar, falta de mais pontos de água, atendimento ineficiente e desorganizado., gente a mais a correr Não posso falar do que não vi, apenas testemunhar o que presenciei.
Concordo que deveria ter começado mais cedo, às 09h já estava muito calor e o que ajudou mesmo no inicio foi ter ainda sombras. Dou o exemplo da Maratona do Rio de Janeiro que fiz em junho. No Brasil é inverno mas no Rio de Janeiro está sempre sol. A prova começou às 05h30!!! Ah é muito cedo! Pois é, mas comecei antes do nascer do sol e acabei ainda estava "fresco".
Eu fui fazer um treino de 90', e quando ja tinha 3 km e regressava já para perto da meta, a quantidade de atletas ainda a partir era surreal., e já tinham passado cerca de 20'. Certo que há provas em que os atletas partem por vagas e há sempre gente a partir durante muito tempo, não é o caso aqui, mas se calhar deveria. Na minha opinião o Porto e este percurso não comporta 15000 atletas mas se o querem fazer pelo menos podiam fazer por blocos. Dou o exemplo do OH MEU DEUS,, onde fiz o ultra este ano. Com muito menos atletas as partidas fizeram-se por blocos precisamente para não congestionar o percurso.
Eu corro há 16 anos, sou uma rookie ainda, mas já me conhecço bem e o meu corpo também. Tinha um treino de 90' mas comecei a acusar o calor e optei por fazer o retorno mais cedo. No marco do km 5, já tinha passado 60 do tiro de partida e ainda estavam centenas de pessoas. Achei estranho e pensei "Este pessoal vai demorar 4 horas para fazer uma meia maratona!".
Podemos mais tarde discutir se é muito ou pouco, mas não é normal. Infelizmente acertei quando vi as classificações finais. Provavelmente também se deveria ter um tempo de corte mais efetivo e no ato de inscrição pedir um certificado de uma prova anterior..... concordam? Ah mas o desporto é para todos ..... é uma discusão para ter noutra altura mas discordo dessa afirmação. Fui fazer o Granfondo da Serra da Estrela este ano, tinha 8 horas para terminar, cortei a meta a tempo, mas tenho noção que foi um desafio maior que eu e que apesar de ter preparação, não tinha para esta prova! Quando atingiu as 8 horas quem vinha atrás já não teve classificação. Uma vez nos Abutres tive cãibras e demorei mais que as 05h30, também não contou..... já fui barrada por 1' e tive que aceitar.
Talvez se os tempos fossem mais apertados e tívessemos que ter alguma experiência anterior..... aqui também as organizações têm culpa porque por uma questão de lucro aceitam todos. E contra mim falo, porque certamente não faria algumas provas!
Água não me pareceu faltar, mas só fui até aos 7 km. Já participei em provas em que faltou água, outras em que acrescentaram mais pontos como este ano no Trail Rota dos Espigueiros ou há 2 anos nas Fisgas de Ermelo. Sei que o normal em Portugal (pelo menos não me lembro de ser diferente, se existir alguma prova que o faça por favor digam) é ter abastecimentos de 5 em 5 km. Em longas distâncias penso que deveria ser de pelo menos de 3 em 3. No Rio de Janeiro era de 2,5 em 2,5 mas noutras maratonas e meias pela Europa o intervalo costuma ser mais curto. Acho importante, não só como forma de motivação, pois estou quase no próximo, mas mais importante, para hidratação e alimentação. Certo que nos devíamos prevenir e levar connosco pelo menos geis, mas há sempre quem conte com o que há pelo caminho.
Li também que o socorro foi complicado. Com tantos atletas na rua e tantas ocorrências percebo, mas não compreendo. Tem que existir um plano B, C, e todas as outras letras. Dou o exemplo da prova de Val D'Aran que fiz no ano passado. Estava um dia de sol esplendoroso, mas previa-se mau tempo. Todas as provas foram encurtadas. Houve que não gostasse, mas a segurança vem 1º. Este ano em Tenerife devido ao mau tempo a prova toda foi cancelada. Segurança 1º. Mais ainda sabendo de antemão o inferno que ia estar. Na meia maratona de Lisboa há uns anos o cenário foi semelhante também porque não se antecipou problemas.
A malta vai dizer "Ah são reallidades diferentes, com muito mais dinheiro". É verdade, mas se então há menos disponível, também não podemos aceitar 15000 a correr!
Dito tudo isto, não retiro uma palavra ao que disse ontem, há culpa das organizações quando falham em questões de segurança, mas também há muita culpa dos atletas que não treinaram para o esforço, que treinaram mas não ouviram o corpo, que colocam o valor de um RP acima do valor da vida.
Num mundo cheio de "Qual foi o teu tempo?", pergunta antes "Foi divertido?"