10/01/2026
Há irmãos e há estranhos com quem se compartilha os pais. Mas “meio-irmão” devia ser uma expressão proibida. Porque é um mau exemplo de bondade. E porque, por isso mesmo, faz mal ao crescimento.
É muito difícil ter irmãos. Mas que não haja dúvidas sobre isso: é, também, muito bom. Mas é difícil. Porque se perde muito. Daí que aquela expressão “eles são muito amigos”, tenha uma “evolução natural” e saudável para: “são como o cão e o gato”. Entrecortada pelo já clássico “estão impossíveis”. Unicamente porque a “conta-corrente” que se estabelece entre dois irmãos, faz com que eles sejam capazes das maiores cumplicidades e dos maiores arrufos. Próprios, aliás, duma “relação de irmãos”. Aliás, para que é que se quer que dois irmãos sejam “muito amigos”? Não será isso um degrau abaixo deles serem “muito irmãos”?
Há, depois, os “meios-irmãos” que, de pequena fractura em pequena fractura, se foram afastando e, à conta de tudo o que ficou por dizer entre eles, se transformam em estranhos que partilham os mesmos pais. Que, de início, se evitam. Logo a seguir, se cumprimentam de maneira formal. A seguir, se desculpam com uma mulher ou um marido que possa ter chegado à vida deles aos quais se atribui toda a culpa pela fractura que assumem. E, finalmente, se incompatibilizam por uma “porcaria” sem sentido. Dois irmãos que se incompatibilizam começaram por ser, com a cumplicidade dos pais, “meios-irmãos”.
Para tudo se transformar num desafio de complexidade crescente para os pais há, nas famílias reconstruídas, muitos “meios-irmãos”. Para além daquela fórmula escorregadia “os meus, os teus e os nossos” que faz com que os filhos tenham, desde logo, mais hipóteses de se sentirem “meios-irmãos” do que, simplesmente, irmãos. É muito difícil gerir os cuidados, gerir os gestos de amor, gerir as repreensões e as zangas, e gerir os espaços (dos quartos, dos armários da roupa, da mesa ou do sofá), quando todos eles parecem prontos a reivindicar: “esse é o meu lugar!”. Nada do que se passa entre todos os nossos filhos é fácil! Mas enquanto não for claro o lugar de cada um dos nossos filhos, dentro de nós, estamos a transformá-los em “meios-irmãos”. E isso é mau!