06/02/2022
Quando morre alguém que não sendo próximo nos seduz anos e anos com o seu saber, é como se o universo viesse rasgar de repente uma folha dos livros que lemos sempre. O Lauro António é a referência do cinéfilo da minha geração. Eu lia-o no SE7E, na Capital, numa revista que me encantou a adolescência, “Isto é CINEMA”. Finalmente quando o conheci, já em meados dos anos 80, confirmei a atitude serena, cordial e amigo disponível para uma tertúlia de cinema. Na verdade nunca fomos amigos de proximidade, o Lauro , naquele timbre de voz, corpulento e pausado nas conversas, teve uma fase na vida em que as barbas e o chapéu, dizia-lhe eu que lhe davam um ar de Orson wells lisboeta, ele sorria e lá trocávamos umas ideias de cinema. Eu sempre espantado pelo seu conhecimento e estudo. Espantava-me sempre o seu saber de muitos anos, é engraçado que como cineasta e antes cinéfilo ele desenvolveu uma carreira muito semelhante aquela que fez o grande Peter Bogdanovich que também programou cinema, escreveu livros, fez crítica de cinema, festivais , realizou filmes e mostrou sempre paixão e dedicação de vida ao cinema. Com as devidas distância, só faltou ao Lauro poder continuar a realizar cinema porque “ Manhã submersa” revelou alguém que poderia ter feito muito mais pelo nosso cinema como realizador.
Já não nos víamos há muito, como disse não éramos muito próximos mas cruzamo-nos muitas e muitas vezes em circunstâncias diversas, nos festivais ou nas entrevistas a figuras do cinema. Na sua forma sorridente de falar dizia o Lauro : Então meu amigo…como vai o nosso cinema?.
Respondo agora: - lá continua amigo, lá continua, o tempo é que não perdoa e só nas fitas é que alguém é eterno.
Viva o Lauro António pelo que nos deu e pelo que eu também aprendi com ele.
A notícia quando chegou, deixou a manhã submersa de uma estranha saudade.
Até sempre Lauro António … enquanto tiver memória e passar pelos lugares onde nos cruzamos , ficará a ecoar na minha recordação o seu cumprimento : “então meu amigo…como vai o nosso cinema?”
Mário Augusto