23/09/2025
BOMBEIROS, FINANCIAMENTO E PROFISSIONALIZAÇÃO....
A responsabilidade da proteção de pessoas e bens é, em primeira instância, da responsabilidade das autarquias. É sobre o presidente da câmara que recai a responsabilidade máxima no que diz respeito à proteção civil a nível do município, é ele e só ele que pode ou não ativar o plano de emergência municipal.
É apanágio da câmara municipal do Seixal dizer ser a câmara municipal que mais apoia os seus bombeiros, mas será isso verdade? O cálculo é efectuado como? Rácio de financiamento/população? Rácio de financiamento do poder central/local? Ou valor total de financiamento?
Vamos portanto analisar o relatório da "auditoria ao financiamento pelos municípios de corpos e associações de bombeiros" N°5/2022 do tribunal de contas. O mesmo é de 2022 e alguns dos seus anexos de 2019 pois não se encontra disponível outro mais recente, mas os dados de financiamento não serão muito diferentes e o da população também não (censos 2021 referem 166 693 habitantes e os cálculos da auditoria estão feitos para 167 752)
Segundo esse relatório o município está em:
3° no rácio de residentes por número de corpos de bombeiros. (Amadora em 1° e Braga em 2°).
275° no rácio de bombeiros por 1000 habitantes (0.9 na altura com 146 bombeiros, nesta altura já estará numa posição mais alta pois o número de bombeiros aumentou)
1° no rácio subvenções municipais versus subsídios ANEPC (4,64)
Este 1° lugar demostra que ou a câmara do Seixal financia muito bem os seus bombeiros, ou a ANEPC subsidia pouco os bombeiros de Amora e Seixal.
Se tivermos em conta o rácio de subvenções municipais por habitante, o mesmo é de 11,85 por habitante, ficando aquém de muitos municipios como Oeiras 18,14, Lagos 28,42 ou Espinho 19,58.
Se tivermos em conta o rácio de subvenções municipais por bombeiro, o mesmo é de 13 612,45€ ficando aquém do da Amadora 17 003,52€ e tendo em conta que o número de bombeiros subiu, este rácio desceu ainda mais.
Em termos de valor total não se encontra uma listagem dos que mais financiam, mas na das subvenções podemos ver que o município do Seixal financiou em 2019 a quantia de 1 987 418,33€, Oeiras 3 217 335,91€, Cascais 2 403 672,62€, Loures 2 137 930,52€. (Se bem que estes tem mais bombeiros e corpos de bombeiros)
A análise do financiamento municipal aos corpos de bombeiros das AHB por parte do TC teve por base a informação constante das listagens anuais de subvenções públicas divulgadas pela IGF.
Dizer apenas que a CMS é das que mais financia os bombeiros é uma falácia. Outros Municípios financiam bem mais se se analisar o financiamento por habitante ou por bombeiro.
No Seixal existem dois corpos de bombeiros, os de Amora e os do Concelho do Seixal, com um total de quatro quarteis espalhados pelo município de modo a reduzir tempos de chegada dos veículos de 1° intervenção.
Estudos indicam que apenas deve existir um corpo de bombeiros por município independente do número de secções espalhadas pelo território, de maneira a unificar a cadeia de comando e a controlar melhor o financiamento.
Tanto o relatório do TC como os recentes estudos sobre os incêndios rurais, apontam para uma necessidade de profissionalizar o socorro. Essa mudança não pode ser feita de forma desligada dos municípios, pois são eles o primeiro patamar da proteção civil e o patamar no qual os bombeiros se encontram organizados.
Podemos olhar para vários municípios mais pequenos que o do Seixal e constatamos que os mesmos tem corpos de bombeiros profissionais (Tomar, Tavira, Faro, Loulé), mas vamos nos concentrar no de Setúbal. Setúbal tinha em 2021 a população de 123.496 habitantes e em 2024 um orçamento de 5.768.410€ o que dá um rácio de 46.71€ por habitante.
Já em proposta anterior da Assembleia Municipal foi feita e aprovada a recomendação para a passagem a bombeiros municipais. E mais recentemente foi aprovada apenas com o voto contra da CDU a tomada de posição N°50/XIII/2024 que consiste numa recomendação, entre outras coisas, para a aquisição por parte da CMS de um veiculo plataforma de 43 metros (o da AHBMCS apenas tem 30 netros e já não chega ao topo dos restantes prédios construídos) e aumento do financiamento com vista à contratação de mais 8 bombeiros. O executivo arquivou está recomendação na gaveta.
Para a profissionalização dos bombeiros o Decreto-Lei n.º 247/2007 estabelece no seu Artigo 7° na alinha 3 o seguinte:
3 - Os corpos de bombeiros mistos têm as características seguintes:
a) São dependentes de uma câmara municipal ou de uma associação humanitária de bombeiros;
b) São constituídos por bombeiros profissionais e por bombeiros voluntários, sujeitos aos respectivos regimes jurídicos;
c) Estão organizados, de acordo com o modelo próprio, definido pela respectiva câmara municipal ou pela associação humanitária de bombeiros, nos termos de regulamento aprovado pela ANPC, ouvido o Conselho Nacional de Bombeiros.
De referir que os 2 corpos de bombeiros do município são mistos, pelo que a criação de bombeiros profissionais não seria tão difícil assim.
Por isso concluímos que apesar da CMS financiar bem os bombeiros, não é a que mais financia tendo em conta os rácios de financiamento por habitante, e que tendo em conta outros municípios pelo país, a mesma já devia ter avançado com a profissionalização dos seus corpos de bombeiros.