06/12/2025
ONOMA – ONOMA (Ed. Autor – 2025)
“Música que encapsula identidade, autoridade e essência...numa estreia ONOMástica!”
Trompete: Vasco Silva
Sax. Alto: Lucas Oliveira
Sax. Tenor: Igor Cavaz
Piano e Teclados: Simão Raimundo
Contrabaixo: Duarte Julio
Bateria: Hugo Santos
Percussão: Iúri Oliveira (Músico Convidado)
Carta de Apresentação
Citando a biografia dos ONOMA - nome que provém do grego - "o projeto surgiu em 2023, a partir do encontro de estudantes da ESMAE - Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE Jazz), com o objetivo de se estabelecerem na cena jazzística atual, mostrando a frescura de uma nova geração do jazz português. Compondo e tocando apenas temas originais, a sua música ultrapassa as barreiras do jazz tradicional, cruzando vários géneros musicais e estabelecendo diversificadas paisagens sonoras."
Assim este vosso crítico irá dissertar um pouco sobre aquilo que ouviu, tema a tema, a partir do próximo parágrafo.
"Miráculo"
Entrada pianística de Simão Raimundo (SR) com espaço e tempo, evocando as últimas folhas de Outono, visto o álbum ter sido lançado mesmo na parte final desta estação do ano e por consequente, mesmo no raiar final de 2025. O tema vai subindo a ouvidos vistos com a entrada em crescendo do sax.alto a cargo de Lucas Oliveira (LO) - sendo que a última parte convida a junção dos restantes sopros e dá-se uma certa desorganização do tema, rapidamente recentrado com a percussão transcendental de Iúri Oliveira (IO) - um convidado de luxo para a estreia deste projeto, que promete agitar as águas do por si já bastante turbulento e criativo universo do jazz feito em costas e encostas lusitanas. Aquela dobragem final do tema em uníssono entre sax's e trompete é de uma subtileza tímbrica deveras assinalável, abrindo um bom prenúncio para a escuta deste "ONOMA".
A primeira associação que fiz ao nome/álbum do coletivo nortenho, remeteu-me ao icónico, selvático e "incatalogável" álbum de Max Roach - "M'Boom" (Columbia Records, 1979), uma vez que a sua primeira faixa tem o nome de "Onomatopoeia".
"Pueblo"
O sapiente contrabaixo de Duarte Júlio (DJ) dá-nos as boas-vindas a "Pueblo" e mesmo antes de a música começar a tocar vem-me à memória uma "referência" batida: Charlie Haden "Liberation Music Orchestra" (e que necessária é a sua música multicultural, libertária e agregadora nos dias de hoje!...). O tema é profuso e mais uma vez a percussão de IO acrescenta novas paisagens ao mesmo tempo que o solo inicial do trompetista Vasco Silva (VS) é denso, estruturado e quiçá "hubbardiano" mesmo. A bateria "quebrada" de Hugo Santos (HS) faz-se notar com a sua aptidão de aliar ao jazz mais convencional (swing e afins), também ritmos mais contemporâneos, recorrendo para isso a estilos como o funk ou drum'n'bass. É de salientar a parelha rítmica formada entre o baterista e o percussionista IO (que também participa neste tema, tal como no anterior, e em "SH - Hallucination" e "El Mosquito"), músico que fomenta várias colaborações (não apenas em territórios jazzísticos) e que recentemente lançou o seu primeiro álbum solo original, "Manifesto" - lançado precisamente no início deste ano de 2025.
"Viriato"
E por falar na forte secção rítmica deste coletivo, é HS que abre "Viriato" - um baterista muito novo, mas que do ponto de vista criativo, técnico e composicional apresenta já uma voz com relevo e substância. Constatamos isso ao vivo no último Guimarães Jazz (Centro Cultural Vila Flor / A Oficina • Guimarães), onde escutamos composições da sua pena, num 5TET em que constavam outros músicos deste mesmo projeto "ONOMA". O tema discorre com serenidade sendo que os sopros lhe imprimem um certo ar de nostalgia e boas recordações, começando como acaba, isto é - com a voz própria de HS a fazer-se sentir com diversidade rítmica e um groove muito bem patenteado.
"Olhos de Elefante"
Tema mais clássico onde um jogo de pratos dá o mote para uma abertura em "tutti" dos sopros numa toada mais lenta (lânguida até) e "ellingtoniana" a evocar os parâmetros da escrita para Big Band. Inspirado solo de sax.tenor e destaque para o piano de SR antes mesmo do regresso final ao tema. Nota de realce para a qualidade de gravação e mistura a cargo de Zé Nando Pimenta, nos Estúdios Arda Recorders.
“SH-Hallucination”
Tema com entrada tipo "jungle", mercê da junção entre a percussão de IO e a bateria de HS, uma simbiose rítmica irregular, numa mescla perfeita entre jazz e world music (com um piscar de olhos à eletrónica) muito bem conseguida e arrebatada num "copioso" solo de sax.tenor de Igor Cavaz (IC). Perguntas-respostas entre os 3 sopros numa evolução melódica, harmónica e sobretudo tímbrica/rítmica, sendo que para isso contribuíram também as explorações desenhadas pelo eletrónica de SR, aqui a trocar o piano pelos teclados. Uma "alucinação sonora" que sintetiza muito bem toda a toada desta estreia "ONOMÁstica".
"Letter to a Lost Traveller"
Momento de acalmia, explanado no som quente dos metais bem enquadrados pela palete harmónica do piano elétrico de SR, abrindo caminho para um curto mais incisivo solo de DJ em contrabaixo. Segue-se momento a solo no trompete de VS, a evocar nomes cimeiros da cena jazz europeia como Erik Truffaz ou Nils Petter Molvaer.
"El Mosquito"
Tempo para alguma arte circense, aparecendo de rompante "El Mosquito" a combinar uma certa ironia com paisagens sonoras recambolescas (estilo filme "western") onde os solos, ora de trompete, ora de saxofone vão desfilando em catadupa. Música repleta de groove e texturas harmónicas que levam o ouvinte a dar por si a mexer a cabeça, qual corpo que acaba de ser picado. Já na parte final um dos sax's imita na perfeição o zumbido deste inseto, que vive para nos atormentar o sistema nervoso devido ao som agudo e inquietante que reproduz.
"Hermenêutica"
Penúltimo ensaio sonoro do Sexteto, num piscar de olho ao universo ECM Records, através da exploração melódica de VS, amparado por uma atmosfera rica em silêncios e interrogações. Sendo o significado deste tema "a arte ou técnica de interpretar e explicar textos ou discursos", resta-me concluir que a música destes "ONOMA" serve como uma introdução exemplar ao universo jazzístico por parte de novos ouvintes deste tipo de música, que primeiro se estranha e depois se entranha.
"Cais das Colunas"
Faixa final mais "ortodoxa", ou seja, a apresentar um jazz mais convencional, mas nem por isso menos sonante, até pelos belos solos de LO no sax.alto e SR no piano - a cerrarem o pano em grande estilo deste álbum homónimo. O tema acaba num sopro de vento final em fade out.
Considerações Finais
Música com muito sumo e "vitamina J", é o que nos apresenta este Sexteto na sua estreia.
Segundo o Google, "em textos bíblicos, Onoma encapsula identidade, autoridade e essência de uma pessoa ou coisa", sendo que me apetece dizer que essa descrição assenta como uma luva para apresentar o som deste coletivo.
Um projeto para estar atento nos próximos anos, sendo que é de assinalar o facto de músicos tão jovens e talentosos apresentarem já uma estética muito bem maturada, com composições bem elaboradas, solos inspirados e uma excelente comunicação entre pares, fazendo sem dúvida, deste "ONOMA", um dos registos mais fulgurantes de 2025, do já de si "hiperativo" panorama jazzístico português.
Francisco M. Sousa
(Os putos do jazz)
Dez. 2025