01/06/2026
— As chaves do apartamento dos meus pais, agora. — disse a cunhada, com calma, mas de forma firme.
Nadejda subia as escadas depois de um pesado dia de trabalho na contabilidade de um centro médico. A noite quente de julho fazia a blusa húmida colar-se-lhe às costas, e a pasta com documentos parecia mais pesada do que o normal. Os pais tinham partido para a casa de campo da tia há uma semana, deixando à filha as chaves do apartamento no segundo andar para que ela regasse as plantas e verificasse o correio.
No patamar entre o segundo e o terceiro andar, Nadejda parou. Do apartamento dos pais vinham vozes altas e gargalhadas. A música soava tão alto que fazia a porta vibrar. O coração dela começou a bater mais depressa — os pais só deveriam regressar dentro de três dias.
Nadejda encostou o ouvido à porta. Entre as vozes desconhecidas, reconheceu nitidamente a voz da sogra, Valentina Dmitrievna. A mulher contava alguma coisa, soltando risadas de vez em quando. Alguém brindava, outro aumentava ainda mais o volume da televisão.
As mãos de Nadejda tremiam quando ela tirou o telemóvel. Primeira chamada para o marido — ninguém atendeu. Segunda chamada, um minuto depois — silêncio. Terceira chamada — novamente o atendedor de chamadas. Uma onda de pânico começou a subir-lhe do estômago, mas ela cerrou os dentes. Oleg sabia perfeitamente onde estava a mãe.
Tirou do s**o o molho de chaves e, em silêncio, introduziu uma delas na fechadura. A porta abriu-se sem um som. O primeiro impacto foi o cheiro intenso de fumo de tabaco misturado com álcool e algo mais, doce e enjoativo. Os lírios preferidos da mãe, no parapeito da janela, murchavam com o calor abafado.
No hall, estavam espalhados sapatos alheios — botas masculinas, sandálias femininas, ténis infantis. Sobre o móvel dos sapatos havia uma garrafa de vodka vazia e um cinzeiro a transbordar. Nadejda tirou os próprios sapatos e entrou em bicos de pés na sala de estar.
A cena diante dela fez com que se apoiasse no batente da porta. A toalha branca da mãe, usada apenas em dias festivos, estava manchada com pingos vermelhos e cinzas. Na mesa, três garrafas de vodka vazias, várias de cerveja e os copos de cristal da mãe, onde flutuavam beatas.
As almofadas do sofá estavam no chão. Na mesa de centro, marcas circulares molhadas arruinavam o tampo polido. Um dos vasos de cristal da mãe jazia de lado, felizmente intacto.
À mesa, sentavam-se cinco pessoas. Valentina Dmitrievna estava à cabeceira, como se fosse a dona da casa. Ao lado dela, um homem de cerca de cinquenta anos com a camisa amarrotada, duas mulheres de idade aproximada à dela e um adolescente de uns dezasseis anos, que fumava apesar da pouca idade.
— E depois a minha nora vem dizer que vai passar as férias não connosco na casa de campo, mas com os pais dela! — contava Valentina Dmitrievna, agitando o copo de vodka. — Imaginam? Para ela, nós somos estranhos!
— Oh, Valya, a juventude agora é assim — respondeu uma das mulheres, acendendo outro cigarro. — A própria família é mais importante para eles.
— Que própria família? — indignou-se a sogra. — O meu filho é a família dela! E os pais? Esses não vão ajudar quando vierem as crianças!
A música tocava tão alto que ninguém notou Nadejda no vão da porta. Ela observava a forma como o grupo da sogra se comportava, sem pudor, no apartamento dos seus pais. O adolescente sacudia as cinzas diretamente no tapete. O homem de camisa amarrotada pousara as botas sujas na poltrona da mãe.
— E que apartamento bom — comentou a segunda mulher, olhando em volta. — No centro, renovado recentemente. Tiveram sorte.
— Pois é — concordou Valentina Dmitrievna. — Nós nunca teremos um assim. Mas a nora cresceu aqui, recebeu tudo prontinho.
Nadejda cerrou os punhos. Os pais privaram-se de tudo para poderem renovar aquele apartamento. O pai trabalhava em dois empregos, a mãe costurava em casa à noite. Cada rublo era conquistado com muito esforço.
Valentina Dmitrievna levantou-se e foi até ao aparador com a loiça. Nadejda viu-a pegar na estatueta de porcelana da mãe — presente da avó falecida.
— Que peça bonita — disse, rodando-a nas mãos. — Deve ser antiga.
— Valya, o que é isso? — riu-se o homem da camisa. — Não vais levá-la, pois não?
— E por que não? — a sogra encolheu os ombros. — Está só a apanhar pó. A nora não valoriza estas coisas, a juventude só olha para o telemóvel.
Nadejda já não conseguiu aguentar. Avançou do canto e bateu palmas com força. A música continuou, mas todas as conversas cessaram de imediato. Cinco pares de olhos fixaram-se nela.
Valentina Dmitrievna ficou imóvel com a estatueta nas mãos. No rosto dela passaram primeiro a surpresa, depois o medo e, finalmente, algo parecido com irritação.
— Nadya! — exclamou falsamente, pousando depressa a estatueta no lugar. — Como é que tu estás aqui?
Nadejda percorreu a sala com o olhar, registando cada detalhe da destruição. As manchas na toalha. As beatas nos copos de cristal. As marcas das botas na poltrona. As cinzas no tapete. Os círculos molhados na mesa polida.
— Eu moro um andar acima, — respondeu Nadejda calmamente. — E tenho as chaves deste apartamento porque os meus pais me pediram para cuidar dele enquanto eles não estão.
O grupo da sogra trocou olhares. O adolescente apagou rapidamente o cigarro no chão. O homem da camisa tirou os pés da poltrona.
— Só entrámos… — começou uma das mulheres.
— Por uma horinha, — interrompeu Valentina Dmitrievna. — Nada demais, só para conversar e recordar a juventude. Quase somos família, Nadejda.
— Quase família não fuma na casa dos outros nem deixa beatas nos copos de cristal, — respondeu Nadejda, sem elevar a voz.
Valentina Dmitrievna corou. O grupo começou a mexer-se nervosamente nos lugares.
— Nadejda, não sejas assim… — tentou justificar-se a sogra. — Somos família! Oleg não se importa, eu falei com ele.
— Se o Oleg não se importa, por que é que não atende as minhas chamadas? — Nadejda tirou o telemóvel e mostrou o ecrã com as chamadas perdidas.
Valentina Dmitrievna abriu a boca, mas não conseguiu responder. O homem da camisa começou a juntar as garrafas vazias, preparando-se claramente para sair.
— Vamos arrumar tudo agora — disse rapidamente uma das mulheres. — Não aconteceu nada de grave.
Nadejda aproximou-se da janela e abriu-a completamente, deixando entrar ar fresco. O fumo do tabaco começou a dissipar-se lentamente. Virou-se para o grupo, estendendo a mão com a palma para cima.
— As chaves do apartamento dos meus pais, agora.
Valentina Dmitrievna estremeceu como se tivesse levado um choque. O rosto da sogra ficou vermelho escuro.
— Que chaves? — fingiu não perceber Valentina Dmitrievna. — Do que estás a falar?
— Das chaves com que abriram este apartamento — respondeu Nadejda com calma. — Os meus pais só me deram chaves a mim. Logo, as chaves estão convosco, através do Oleg.
O grupo da sogra começou a sussurrar entre si. O adolescente levantou-se da mesa e dirigiu-se à saída.
— Para onde pensas que vais? — parou-o Nadejda. — Ninguém sai daqui sem arrumar tudo.
— Vamos, vamos arrumar, — apressou-se Valentina Dmitrievna. — E as chaves… que chaves… eu não sabia que estavas contra…
— Valentina Dmitrievna, — disse Nadejda calmamente. — Sabia perfeitamente que estavam a fazer uma festa num apartamento alheio sem permissão dos donos. Entreguem as chaves.
A mão de Nadejda continuava estendida. Ela não tinha intenção de recuar.
O homem da camisa amarrotada riu nervosamente e começou a juntar as garrafas vazias num s**o. Uma das mulheres levantou-se e começou a limpar as cinzas da toalha da mãe. O adolescente já estava no hall, calçando os ténis.
— Vá lá, Valya, — disse o homem, sem olhar para cima. — Está tarde, amanhã há trabalho.
Valentina Dmitrievna procurou as chaves na mala, o rosto cheio de vergonha e raiva. A mão tremia quando tirou o molho de chaves.
— Aqui estão as tuas chaves — atirou desafiadora Valentina Dmitrievna, deixando-as cair na palma da mão de Nadejda. — Espero que fiques satisfeita.
Nadejda apertou as chaves no punho, mas não respondeu. O controlo da situação passou definitivamente para ela. O grupo da sogra sentiu isso perfeitamente.
— Peço a todos que saiam do apartamento — disse Nadejda calmamente, apontando para a porta.
Os convidados começaram a arrumar-se apressadamente. As mulheres murmuravam desculpas, o homem bebia os restos de cerveja direto da garrafa. Valentina Dmitrievna silenciosamente guardava um maço de ci****os na mala.
— Nadejda, não queríamos causar problemas — tentou justificar-se uma das mulheres. — Só queríamos conversar.
— Num apartamento alheio, sem permissão dos donos — respondeu Nadejda. — Fumaram, beberam, estragaram as coisas… Continuação no primeiro c0mentári0 👇👇👇